Sexta-feira, 21h55. Eu de jaqueta, bota, rosto sem maquiagem nenhuma, nariz vermelho. Ele de malha de lã, all star velhinho e mãos quentinhas. Av. Paulista, 15º andar, frio, pão de café e vinho. Parte das duzentas pessoas ainda se acomodavam, nós em banco alto na beira do balcão. As luzes se apagam e algumas vermelhas se acendem. O cabaré espera a diva da noite, que chega calada, fumando charuto, com uma taça de vinho tinto na mão.
Nunca havia visto Cida Moreira ao vivo. Descobri a cantora ainda no teatro, quando integrava o grupo que optava em trabalhar e estudar os textos e a estética0 de Brecht. Ela é uma atriz, grandiosa, ainda que não tenha DRT e nenhuma formação teatral. É uma intérprete maravilhosa de textos, de músicas e músicos. Se apropria de tal forma das canções que parece que come, rumina, dorme com a letra e acorda com o sentimento exato e tom perfeito para cantar a música. A música passa por ela, entra, toma corpo na sua história, cria um vínculo, um link com sua própria essência.
Os óculos ovais, o cabelo penteado bem vermelho, Cida Moreira é enorme, gigante, densa. Enquanto o ator Antônio Arroeira recita entre o público um poema de Cecília Meireles, a diva que parece estar num pedestal pois, mesmo estando no mesmo nível que o público, observa de cima, blasé, as pessoas sozinhas ou acompanhadas que estavam ali para ouvir sua voz e seu piano. O ator desliga o microfone e Cida se põe a tocar. Um pianão (mesmo que teclado, por conta da impossibilidade de subir um piano pela interminável escada do Sesc Av. Paulista) entra nos nossos ouvidos. Um tango belíssimo no qual ela pronuncia, ora murmurando ora berrando, palavras em francês. Na sequência, o seu mais que querido Tom Waits entra no repertório e já emenda com a trilha sonora lindíssima do filme Blade Runner, que aparece com um tom meio louco, meio provocativo, combinando com o honesto Carbenet Sauvignon que eu girava pelos dedos. Entre uma música e outra, Cida reclama da falta que sente das notas que não cabem no teclado e que são exclusividade dos pianos, reconta a história de seu amor maior pela obra de Bertold Brecht, faz uma graça, diz que não canta Babaloo nem morta.
Entre um gole e outro de vinho, canta Speak Low, música consagradíssima na voz de Billie Holiday e, aqui no Brasil, mais conhecida com Marisa Monte em seu primeiro álbum, lá em 1988. Cantarolei junto feliz, feliz e emocionada, porque é das músicas mais gostosas do mundo. Cida Moreira cantou uma única música em português, Chico Buarque, e ela não podia ter uma letra e uma interpretação mais filhadaputadelinda. Uma canção desnaturada é a música que vai me fazer chorar por toda minha vida, em qualquer lugar que eu estiver e lembrar dessa música na voz de Cida vou desaguar sem esforço. Impossível ser mãe e não se emocionar, impossível menstruar e ovular e parir e não doer com a composição. Cida diz que Chico é o nosso Brecht, que é quem melhor escancara todas as dores humanas, e eu concordo demais.
Em pleno cabaré à la anos 20, com batom vermelho e colar brilhante, vai revelando novas paixões musicais, como Amy Winehouse, de quem pega Back to Black e canta, e canta de arrepiar. Apresenta com muita alegria um moço que é amigo da filha, de 22 anos e que estuda na Usp, e canta com ele Life on Mars, do Bowie. E foi nesse momento que, de tanto que escorria lágrima do meu rosto, molhei o caderno da minha colega de profissão que fazia suas anotações bem ao meu lado. Pedi desculpas e recebi um sorriso de compreensão de volta.
Pra quem não tem a menor ideia de quem é Cida Moreira, aqui vai só um trecho desse espetáculo:
Uma garrafa de vinho e uma embriaguez que dura até agora e que vai se estender para o infinito da minha memória. Saí de lá com a alma fortificada, robusta, me sentindo orgulhosa por ser tão sensível e refinada nos meus gostos musicais. E feliz, sobretudo, por ter a melhor companhia, que sempre topa dividir tudo comigo, o copo cheio e o vazio também. E que mesmo comentando no final que sempre se acha meio medíocre depois de viver esse tipo de experiência artística, me dá de presente o melhor dia dos namorados que já tive em todo meu histórico.




da Caravana-do-Amor-Super-Mágico (de se revezar de 3 em 3 pessoas por 2 horas na fila até o dia amanhecer e a bilheteria abrir) não precisou ser posto em prática. Quer dizer, houve uma tentativa. E fizemos um picnic com direito a toalha xadrez, bolo (duro e que não deu certo) da mãe do Rá, Mei reclamando de frio, água e muita piada, que somando tudo não completou nem uma hora… Acabamos comprando todos os ingressos via Hugo, por telefone, exatamente assim, na situação dessa foto: sentados na fila, que se estendia beirando o Pacaembu e que somava aproximadamente 50 pessoas.