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Sexta-feira, 21h55. Eu de jaqueta, bota, rosto sem maquiagem nenhuma, nariz vermelho. Ele de malha de lã, all star velhinho e mãos quentinhas. Av. Paulista, 15º andar, frio, pão de café e vinho. Parte das duzentas pessoas ainda se acomodavam, nós em banco alto na beira do balcão. As luzes se apagam e algumas vermelhas se acendem. O cabaré espera a diva da noite, que chega calada, fumando charuto, com uma taça de vinho tinto na mão.

Nunca havia visto Cida Moreira ao vivo. Descobri a cantora ainda no teatro, quando integrava o grupo que optava em trabalhar e estudar os textos e a estética0 de Brecht. Ela é uma atriz, grandiosa, ainda que não tenha DRT e nenhuma formação teatral. É uma intérprete maravilhosa de textos, de músicas e músicos. Se apropria de tal forma das canções que parece que come, rumina, dorme com a letra e acorda com o sentimento exato e tom perfeito para cantar a música. A música passa por ela, entra, toma corpo na sua história, cria um vínculo, um link com sua própria essência.

Os óculos ovais, o cabelo penteado bem vermelho, Cida Moreira é enorme, gigante, densa. Enquanto o ator Antônio Arroeira recita entre o público um poema de Cecília Meireles, a diva que parece estar num pedestal pois, mesmo estando no mesmo nível que o público, observa de cima, blasé, as pessoas sozinhas ou acompanhadas que estavam ali para ouvir sua voz e seu piano. O ator desliga o microfone e Cida se põe a tocar. Um pianão (mesmo que teclado, por conta da impossibilidade de subir um piano pela interminável escada do Sesc Av. Paulista) entra nos nossos ouvidos. Um tango belíssimo no qual ela pronuncia, ora murmurando ora berrando, palavras em francês. Na sequência, o seu mais que querido Tom Waits entra no repertório e já emenda com a trilha sonora lindíssima do filme Blade Runner, que aparece com um tom meio louco, meio provocativo, combinando com o honesto Carbenet Sauvignon que eu girava pelos dedos. Entre uma música e outra, Cida reclama da falta que sente das notas que não cabem no teclado e que são exclusividade dos pianos, reconta a história de seu amor maior pela obra de Bertold Brecht, faz uma graça, diz que não canta Babaloo nem morta.

Entre um gole e outro de vinho, canta Speak Low, música consagradíssima na voz de Billie Holiday e, aqui no Brasil, mais conhecida com Marisa Monte em seu primeiro álbum, lá em 1988. Cantarolei junto feliz, feliz e emocionada, porque é das músicas mais gostosas do mundo. Cida Moreira cantou uma única música em português, Chico Buarque, e ela não podia ter uma letra e uma interpretação mais filhadaputadelinda. Uma canção desnaturada é a música que vai me fazer chorar por toda minha vida, em qualquer lugar que eu estiver e lembrar dessa música na voz de Cida vou desaguar sem esforço. Impossível ser mãe e não se emocionar, impossível menstruar e ovular e parir e não doer com a composição. Cida diz que Chico é o nosso Brecht, que é quem melhor escancara todas as dores humanas, e eu concordo demais.

Em pleno cabaré à la anos 20, com batom vermelho e colar brilhante, vai revelando novas paixões musicais, como Amy Winehouse, de quem pega Back to Black e canta, e canta de arrepiar. Apresenta com muita alegria um moço que é amigo da filha, de 22 anos e que estuda na Usp, e canta com ele Life on Mars, do Bowie. E foi nesse momento que, de tanto que escorria lágrima do meu rosto, molhei o caderno da minha colega de profissão que fazia suas anotações bem ao meu lado.  Pedi desculpas e recebi um sorriso de compreensão de volta.

Pra quem não tem a menor ideia de quem é Cida Moreira, aqui vai só um trecho desse espetáculo:

Uma garrafa de vinho e uma embriaguez que dura até agora e que vai se estender para o infinito da minha memória. Saí de lá com a alma fortificada, robusta, me sentindo orgulhosa por ser tão sensível e refinada nos meus gostos musicais. E feliz, sobretudo, por ter a melhor companhia, que sempre topa dividir tudo comigo, o copo cheio e o vazio também. E que mesmo comentando no final que sempre se acha meio medíocre depois de viver esse tipo de experiência artística, me dá de presente o melhor dia dos namorados que já tive em todo meu histórico.

Continuo sendo aquela pessoa lá dos meus depoimentos de orkut, que quer beber o mundo num gole só. De segunda à sexta a vida tem pedido água, é verdade. O que salva é aquela cerveja com o amigo que liga no fim do dia dizendo: me encontra em tal boteco que depois de tal hora vou estar lá te esperando. Ou aquele casal de amigos que me buscam de fusca com nome de Paçoca e me levam pra tomar caldinho de purê com couve e fazem toda a diferença.

Final de semestre, trabalhos, provas, prazos. Preparação da Festa Lanterna na escola da filha, passeios, eventos. Sonho em praticar Le Parkour diariamente por chegar na rampa do metrô Belém faltando 5 minutos pra eu entrar no trabalho. Aos sábados a correria ainda existe mas sempre envolve diversões culturais. Mas é de domingo que nenhuma preocupação com qualquer trabalho, nem a necessidade de estudar para qualquer prova, ou bagunça de casa que esteja com urgência de ser arrumada, nada nada nada me faz deixar de dedicar o domingão exclusivamente para atividades com Naróca. Pode ser ir ao parque e rolar na grama, pode ser espalhar papéis pelo chão e ir pintando, pode ser andar de bicicleta, assistir a um filme comendo pipoca, pode ser tudo isso e mais alguma coisa. Mas sempre que estamos de bobeira, o pedido da menininha tem sido sempre o mesmo: fotografar.

Já faz tempo que deixo Nara fazer fotos de coisas e pessoas que ela gosta. Sempre que vê uma paisagem ou um recorte que acha bonito ou interessante ela solta um “olha que bonito, mamãe, dá uma vontade de fotografar, né?”, o que me fez começar a carregar comigo uma compacta na mochila, já que andamos muito de carro, cruzando a cidade todos os dias. E ela já sacou várias coisas e já tem lá suas preferências. Não gosta da luz forte do flash, descobriu que os “borrões” quando indicam movimento podem ser legais, descobriu que foco é uma coisa importante – e não só na fotografia. O olhar dela está mudando, amadurecendo, expandindo e isso é muito visível. Com a alfabetização pulsando, olhar placas, indicações e entender, Nara descobre as mensagens, lê o mundo.

Em suma, este post é só pra dizer que minha filha me enche o coração de alegria cada vez mais e isso é muito sem fim.

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Hoje ela me contou que prefere a Nikon, mesmo sendo mais pesada, do que a Canon.

Nara e suas fotos

Quase ia falando os detalhes da vida para justificar que sim, esta é uma das fases mais felizes que já vivi, se não for a mais feliz. Quem me vê falando pode perceber isso nos olhos brilhando, no sorriso largo, na ansiedade controlada sem nem precisar de prozac. Meu antidepressivo é me alimentar do amor que sinto por algumas pessoas. Algumas poucas. E que não tem fim.

Vem molhar meu colo, vou te consolar
Vem, mulato mole, dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer onde é que está ton soleil, ta braise…

Porque apesar de estar sempre correndo atrás de novos sabores e emoções em paixões que vou agregando na vida, definitivamente eu não abro mão do posto quase inatingível que têm os meus maiores e mais antigos amores.

Enquanto uns dizem que o tempo não para
Outros dizem que o tempo não passa de ilusão…

Eu ando relativizando tudo, até o próprio tempo. Já não tenho mais a precisão de quanto tempo vale, no meu corpo e no meu sentimento, 1 ou 2 ou 10 anos. Tudo que é passado virou ontem, simplesmente ontem. E ontem é uma coleção bem grande de coisas empoeirando, quebradas, velhas ou inutilizadas. O passado só serve pra contadores de histórias. E olhe lá.

E pra você, o que é o tempo? Qual é a sua atual relação com ele?

Para todos que têm crianças no convívio, aqui vai uma dica pra lá de boa. Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto resolveram se juntar para a construção de um projeto bem interessante, intitulado Pequeno Cidadão, de músicas para as nossas crianças de variadas fases.

E não é só a idade do público que varia. Tem música para todos os gostos musicais, o sambão aparece em Carrinho por Trás, o eletrônico ganha espaço em Bonequinha do Papai, a cantiga de dormir vem com Meu Anjinho e, olhem só, até o heavy metal teve sua vez em Larga a Lagartixa.

Nara adorou todas as músicas, mas a que decorou no primeiro dia foi Pequeno Cidadão. Sol e Lua me fez chorar por me fazer pensar que em breve, muito em breve, vou ter que lidar com a primeira dor de cotovelo ou experiência de algum amor não correspondido na vida da minha pequenininha. Um sentimento semelhante aconteceu enquanto ouvia Tchau Chupeta, por representar muito bem essa questão da superação das fases, o crescimento, a libertação dos elementos infantis um a um… Me brota lágrima nos olhos e viver tudo isso é muito bonito. Das coisas que eu mais amo na vida é ser mãe.

Bom, se você não conhece ainda, vale muito a pena ouvir tudo o que está disponível no myspace. Se depois de ouvir tudo você tiver gostado muito e ter a sorte de estar em São Paulo, aproveite porque eles se apresentarão no Sesc Pompéia sábado e domingo por um precinho bem do bom.

Nem preciso falar que vou. Mesmo porque só a possibilidade do projeto vingar e não ficarmos esperando exclusivamente por novidades de uma única dupla que faz músicas infantis de qualidade já seria mais que suficiente pra eu apoiar.

A esperança é um artista de rua, cru, grosseiro, popularesco. Pinta o rosto, canta, toca, interpreta, imita, faz malabares.  A esperança é maravilhosa e podia ter nascido na Commedia dell’Arte. É atemporal, está ali acessível sempre, no meio de todos os caminhos. É só olhar pro lado pra ver.

Ou pra dentro.

santosfc

… mais do que nunca, sou PEIXE desde criancinha.

Feriado gostoso de dia cinza, chuvinha fina que vem e vai e Ceumar cantando. Muitas sacolinhas plásticas de supermercado sendo enchidas de coisas que um dia foram realmente importantes. Coisas que mereceram ser guardadas.

Pra hoje virar lixo.

Saiu finalmente a programação completa da Virada Cultural. Para quem se interessar em me acompanhar na aventura mais esperada do ano, segue o que destaco e que vou tentar conferir.

Marcelo Camelo apresentando o Nós na São João a meia-noite (será que vai tá um inferno???) No mesmo palco Zeca Baleiro ao meio-dia e Novos Baianos às 15h de domingo. Que delícia!

No Teatro Municipal, aquele mesmo esquema dos outros anos: artistas tocam álbuns na íntegra. Às 18h tem Clara Crocodilo do Arrigo, mas como já vi isso ao vivo nem me animo muito. Às 21h Egberto Gismonti toca o Alma (e esse é tão imperdível que é pra estragar com todo o resto da programação…) e às 03h da manhã terá o meu álbum preferido do Chico César: Aos Vivos.

No Largo do Arouche, o melhor da música romântica (leia-se brega). Dos clássicos que estão na programação, gostaria de ver Jane e Herondy só por conta de “Não se vá”, mas às 09h da manhã é impossível querer ver alguma coisa.

Na Praça da República, a programação róque não me atraiu nem um pouco dessa vez…

Na Estação da Luz, 24h de Raul Seixas. Os principais ábuns serão interpretados por várias bandas e músicos.

As lindas Anelis Assumpção e Iara Rennó abrem a programação do palco Santa Ifigênia e quem fecha são as pernambucanas do Comadre Fulozinha.

E além disso tudo e um monte mais, tem a coisa mais prazerosa de se fazer nesses dois dias do ano: andar livremente à noite pelo Centro lindo da cidade apreciando a beleza das ruas e se surpreendendo com as intervenções que vão aparecendo pelo caminho… O Largo São Francisco e a Praça 15 de Novembro, lugares reservados para música eletrônica, são os que mais me enchem os olhos de beleza.

Rezinha

A vida é deliciosa. E 2009 cada vez mais tem correspondido aquele texto de final de ano que escrevi para todos os amigos.

De movimento. É assim que tem que ser a vida e a gente, sempre.

Amém.

É bonito demais quando a chuva se espriguiça, respinga de um céu cinza e decide não cair.

Finais de tarde de céu azulzinho inesperado com arco-íris duplo deveriam acontecer com mais frequência nessa cidade. É emocionante e dá vontade de fazer durar horas só pra ficar olhando, sentindo no rosto o vento da chuvona que na hora H ficou preguiçosa e se recolheu.

De ocasião

Vendo armário de 6 portas e 6 gavetas. Se precisar de cama de casal combinando, posso vender também. Só não vai o colchão.
Aceito troca por cama elástica ou minimoog.

Compro escrivaninha bonita de madeira.  Mas só se for bonita. E de madeira.
Ou troco por mesa de madeira de 8 lugares acompanhando 4 cadeiras.

Vendo máquina de lavar roupas sem parar.  Tem complexo de virginiana e só quer trabalhar. Lava muito bem. Cabe 10 kg de roupa, é Brastemp e só para de funcionar quando a tomada é desplugada.
Aceito troca por therumin ou abajour cor de carne.

Os vizinhos

É mentira que todos têm vizinhos que merecem, é muita mentira. Mesmo porque nem sempre a gente tem o privilégio de mudar de vida e mesmo assim continuar morando num prediozinho de três andares que comporta seis apartamentos, onde entre os moradores há três professores de história, um estudante de guitarra e adorador de Oasis (pra quem fiz tanta macumba nas manhãs de sábado!), velhinhos aposentados apreciadores de notícias de rádio AM e uma fan compulsiva de Elvis Presley que já me emprestou livros sobre os Beatles.

Pois bem, às vezes a vida impulsiona a gente para um redemoinho de mudança e novos ares e espaços aparecem disponíveis. Mesmo que ruim, é bom pela mudança, pelo sacolejar das coisas e dos caminhos. Mas mesmo que fosse muito muito bom, seria ruim pela distância física da vida que já se estabeleceu fixa em alguns pontos da imensa cidade.

No período de lá e cá, pude conferir o que me espera. A casa da direita inabitada e a da esquerda… bem, a da esquerda mal parece uma casa. Parece com o que eu imagino ser uma pensão. Ou um cortiço moderno. Porque se fosse daqueles que os autores do começo do século passado descreviam, podia ser até um lugar interessante de se observar da janela lateral, com alguma variedade de personagens e novidades a cada dia. Mas não tem nada que me anime a abrir as janelas da parte de cima do sobrado. Abro e me arrependo imediatamente. Calcinhas, muitas e das piores cores, penduradas para o lado de fora das três janelas. Um horror! É muita mulher gritando, batendo panela, estendendo roupa, acumulando latas e garrafas de cerveja num lugar tão pequeno e sujo que provavelmente elas chamam de quintal. Há um único homem, que chega sempre no final do dia e dá ordens recheadas de palavrões a plenos pulmões. Exemplo para a Nara de tudo o que não devemos ser na vida: pessoas horrorosas.

Na última tarde de arrumação de armário, saí de lá com uma dor de cabeça absurda que não sarou nem com Paracetamol. Não era o pó da casa fechada durante muito tempo, não era a sujeira, traça ou cupim que podiam ter insistido em ficar nos cantos dos armários mesmo depois de tanto veneno. Era o maldito Alexandre Pires (ou algum filhodaputadecolegadelecomaquelavozdesgraçada) que por NOVE vezes (sim, eu contei!) cantou re-pe-ti-da-men-te em versão ao vivo ali na janela de frente para a do meu novo quarto. A minha janela e a da vacamalamadadocacete estavam fechadas. Estavam fechadas e aquela voz chorada cantando aquela letra pobre, feia, que dá vergonha e que reflete toda a ignorância de quem escuta, parecia estar saindo de um aparelho de som do meu quarto. Fico imaginando como deve ser atender o telefone na minha própria casa nessa situação. E é pensando nessas coisas que ativo o meu incrível poder de estabelecer a inimizade eterna logo de cara.

Nunca senti mais saudade da minha fase heavy metal do que naquela tarde. Nunca pensei tanto em Kill ‘Em All do Metallica, War of Words da finada banda Fight, do Time Of The Oath do Helloween , dos meus Manowar e Motörhead que nem lembro o nome dos álbuns e que por descuido já estão encaixotados, junto com o resto da mudança. São coisas que nunca tive em mp3 e que desde a década de 90 são mantidas nas minhas prateleiras de cd. Era sexto sentido, só pode. Sabia que um dia eles iam ser mais do que necessários.

Até a bregalheira vizinha não diminuir significativamente o volume a regra é, pelo menos nas primeiras semanas, tocar em casa em alto e bom som somente solos de guitarras e vozes from hell. Deixemos os Lenines, os Beatles, os Caetanos, os Genes, as Madonnas, os Radioheads para serem ouvidos no carro, no trabalho, na faculdade. Em casa, a partir da semana que vem, a coisa mais tranquila será Seek & Destroy.

Nara começou a tomar contato muito recentemente com as músicas que eu ouvia na adolescência. Li pra ela uma reportagem sobre a vinda do Kiss para o Brasil e os fans mirins que a banda tem por aqui. Ela achou engraçado e quis ouvir as músicas. Coloquei as que mais facilmente causam empatia: Rock and roll all night, I was made for loving you, God gave rock and roll to you, e quando ela já estava achando muito pesado, mostrei eles tocando Forever ao vivo. Daí que ela gostou e agora já sabe identificar quando toca alguma música da banda. A próxima etapa é apresentar Iron Maiden e Black Sabbath, só para que ela não estranhe muito a rotina musical da nova casa. Afinal, o trauma heavy metal tem que acontecer nos vizinhos, não em quem tem um gosto musical e cultural tão sofisticado mesmo tendo tão pouca idade.

P.S.: Monique, conto com o seu repertório de trilhas headbanger superatualizado.

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E 12 músicas gravadas no show de São Paulo podem ser baixadas bem aqui.

Quis saber dos amigos qual era a música mais esperada. Idioteque ganhou e em seguida veio Nude, alguns votos para All I Need e outros para Paranoid Android. A minha? Todas, estava ali para qualquer set list.

O relógio marcava 22h quando eles entraram no palco. De onde estávamos dava pra ver uns pedaços ótimos de palco. Abriram o show com 15 Step, da mesma forma feliz com que abrem o último álbum. Energia lá em cima. Música de cantar junto e dançar, gostosa demais. E passei minutos assustada, pensando que fosse cd. Fiquei muito impressionada com a fidelidade da banda de fazer ao vivo exatamente o que fazem no estúdio. Todas as notas, a voz do Thom Yorke (aquele torto que de tão feio é maravilhoso) idêntica, idêntica a da gravação. Fiquei de boca aberta, nunca tinha visto coisa igual.

Na sequência veio There There, acho que é a música do Radiohead que mais ouvi na vida. Que mais dancei, que mais cantei, que mais tocou em festa em casa, que mais repeti o refrão. É a música da frase que está pendurada na porta da minha geladeira. Pulei, dancei, cantei esgoelando, fui intensamente feliz. Não gostava tanto assim de The National Anthem, mas no show impressiona. Deu a sensação de que havia ali uma orquestra com umas 30 pessoas no palco. Todos os detalhes dos instrumentos, o som muito limpo. Fiquei na ponta dos pés e apreciei a performance quase agressiva de Thom pra essa música. Olhei pra trás e disse com os olhos enormes: como pode? é melhor do que no cd!!!

Os olhos enormes continuaram olhando para o telão que era dividido em quatro, com câmeras que mais pareciam com as de circuito interno de tv, de sistema de segurança, de elevadores. Muitas vezes pegavam um pé ou um pedestal de microfone e mais nada, outras um perfil de Thom Yorke era enquadrado. Tudo em preto e branco e fragmentado demais. Contrastando com o palco sempre muito iluminado com cores bem fortes. Se eu tiver que definir um dia o que é  poesia visual vou mostrar aquilo. E toda vez que rever vou me emocionar só de lembrar o que senti.

Cantei junto All I Need e o coração ficou pequenininho, mas não chorei. Ouvindo o piano de Pyramid Song tão alto e tomando conta de tudo, me deu uma tristeza, uma melancolia tão enorme que me paralizou enquanto o coro que se formou repetia “there was nothing to fear and nothing to doubt”. Não há adjetivo que dê conta.

Não sei ao certo o  motivo de eu ter achado sexy demais a Talk Show Host, muito sexy, apesar das palmas do povo que não cessavam. Eu odeio palmas fora de hora, fora de música. As palmas infelizes apareceram fortemente em Exit Music também, música que me fez chorar de não parar de escorrer lágrima. Nem me arrisco tentar explicar o que senti. Achei linda também Faust Arp tocada no esquema “um banquinho e um violão”, parecia que eles estavam em casa, sentados no chão da sala, fazendo um som. Aliás, esta foi a sensação que permaneceu durante toda a apresentação: de muita proximidade.

Das que não esperava ouvir está Climbing up the Walls, que adoro e que no meio ganhou uma intervenção de uma notícia de rádio daqui de São Paulo. Descobri Jigsaw Falling Into Place no show – algumas músicas são assim mesmo, você ouve mil vezes e ela não te diz nada, daí no show ela cai inteira e de uma vez no seu colo. E caiu, letra, música, ritmo, desespero da interpretação daquele doente do Thom Yorke no microfone. Tudo ali, tudo se encaixando perfeitamente.

Em Fake Plastic Trees meu coração parecia que ia saltar da boca, mal conseguia cantar. Quando tocaram Nude, não consegui fazer nada além de prestar atenção no telão e ouvir com muita atenção aquela voz doce. Bonito demais foi ouvir ecoando o “uuu” final da música. Parecia até que fazia frio. Quando começou Paranoid Android, me arrepiei inteira e achei que eles iam quebrar tudo. E quebraram. No meio da música aquela paulada e logo em seguida a multidão balançando os braços estendidos cantando “rain down, rain down, come on rain down on me, from a great height, from a great heiiiiight, heiiiiight”.

Gostaria de falar sobre todos os integrantes da banda, mas me limito a dupla que toma conta do palco: Thom Yorke e Jonny Greenwood. O primeiro é o absurdo que todos já sabem. O segundo tem a função de fazer os barulhinhos (e barulhões) mais perfeitos com sintetizador e teclado, além de tocar guitarra. Além de tocar MUITA guitarra. Ele é o máximo da expressividade no palco, tem movimentos enormes, extensos, preenche tudo que é imensidão.

Por isso e por todos os outros elementos que me envolveram no evento, dia 22 de março no calendário da minha vida inteira aparece como sendo um dia inesquecível. Mesmo sentindo falta de um 4º biss com Just, No Surprises, How to Disappear Completely e Airbag, foi um show todo perfeito. No 3º biss, fechando a noite com chave de outro, mandaram Creep. E foi feliz demais (FELIZ DEMAIS – quem diria!) cantar no meio da multidão a música inteira e ir pra casa satisfeita e ecoando “I don’t belong here, I don’t belong here…”, sendo que naquela noite não havia lugar melhor no mundo que eu quisesse estar senão ali.

Domingo, filha na casa da avó, caldo de cana e pastel de feira, vestido preto de tecido molinho e a mesma bota de todo show (ótima, velhinha e confortável), cabelo preso e maquiagem à prova d’água. Depois do almoço, carona de amigos, mais amigos de carona e outros não. A tarde ensolarada com ameaças de chuva combinava com o que estaria por vir. Troca de voucher por ingresso na bilheteria, empolgação, conversinhas paralelas, espera de outros amigos. Eu, visivelmente mais quietinha, quase séria, quase tensa.

Entramos na Chácara do Jockey e logo fui abordada por dois moços de sotaque muito gaúcho com uma prancheta na mão colhendo assinaturas em defesa da preservação da Amazônia ou coisa similar. Em outro momento eu teria conversado com eles, perguntado coisas, tirado dali qualquer historinha extra para ilustrar ainda mais meu relato sobre o dia. Mas eu estava calada. Calada como quem está prestes a participar de algum ritual que acontece de 30 em 30 anos. Assinei, devolvi a caneta, balancei a cabeça quando me agradeceram.

Sentada naquela grama verdinha, me espantei ao descobrir que o Cunha Jr. é bem baixinho. Encostada nas costas do Hugo, que conversava sobre cinema e quadrinhos com os amigos deitados ou sentados para trás de mim, fechei os olhos por uns 10 segundos e “just cause you feel it, doesn’t mean it’s there…” era a única coisa que martelava no pensamento. A cabeça da Alê na minha coxa esquerda e a do Rá apoiada na coxa direita. A Alê quase ronca enquanto Israel, hiperventilando, tem problemas com o silêncio. A espera, nesses dias, é sempre muito bonita.

Desde o show do Dave Matthews Band, no About Us Festival que aconteceu no ano passado, elegi o Jockey como meu lugar preferido para ver shows. Não há arquibancada, não há pista vip, não há diferença de preços de ingresso. Todos ali têm a liberdade de escolha, todos podem optar por chegar cedíssimo e grudar na grade, ou entrar em cima da hora e assistir ao show no fundo do gramado, com uma distância que não é estúpida e que dá visibilidade de palco. Outra coisa positiva é que a quantidade de banheiros químicos foi suficiente para atender as necessidades das 30 mil pessoas que estiveram por lá, das duas vezes que usei não gastei nem 3 minutos na fila. O endereço não é dos mais acessíveis para quem vai de ônibus, nem tem estacionamentos decentes com um preço minimamente aceitável – mas até aí, nem na região do estádio do Morumbi tem em dias de evento como esse. A única coisa que realmente vejo como um problema na estrutura do Jockey é o caminho delicado do momento da saída, onde todo mundo de forma muito aglomerada caminha por uma descida com curva e tudo, na velocidade de 10 metros por hora, em minipassos. Basta um único ser espírito-de-porco ter a péssima ideia de dar um empurrãozinho na pessoa da frente para causar um acidente feio, com pisoteamento e tudo mais.

Mas voltando ao dia calorento e de muitas nuvens no céu, preciso falar alguma coisa sobre o festival (porque às vezes, a maioria das vezes, esqueço que domingo ouvi outra ou qualquer coisa que não fosse Radiohead). Gostei muito do Just a Fest, um evento sem nenhuma grande marca de cerveja ou celular como principal patrocinador. Foram várias parcerias, com muitas marcas envolvidas. Até desse detalhezinho eu gostei. Sobre a apresentação das duas outras bandas, comento de forma bastante prática e focada no que vi e ouvi, mas completamente isenta de emoção ou maior animação.

Já me achei a estranha por ser das únicas pessoas que conheço que não gostam de Los Hermanos. Já desperdicei muita energia e tempo tentando arduamente me aproximar ou achar algum elemento que se comunicasse comigo, mas em vão. Tenho muito mais afinidade e gosto infinitamente mais do trabalho solo do Marcelo Camelo do que todo o trabalho da bandinha cult. Gosto de Cher Antoine, a música com a qual eles fecharam o show. Gosto de Último Romance porque a letra é aquela coisa, e A Outra porque a composição também me atrai. E só. E chega. Do show, posso dizer que o som estava muito baixo, mal se ouvia os metais, a voz tinha hora que embolava. Não achei nada bom. Chuviscava um pouco quando o dedão do pé começou a doer. Mas do meu lado estavam Rá, Hugo e Alê que também não gostam e foram meus companheiros de viradas de olhos durante a histeria das pessoas que estavam naquele lugar só para ver os barbudos.

Os alemães do Kraftwerk entraram no palco e tocaram as músicas mais conhecidas mas, pelo menos o pessoal que estava ali na mesma região que eu, bem de frente para o palco e enxergando razoavelmente o que acontecia nele, não  se empolgou muito. Aproveitamos para dar largos passos à frente e, com a saída dos barbudétes, conseguimos um lugar com visão bem boa. O que mais chamava atenção eram as projeções e a performance robótica dos moços não tão moços assim. Cantarolei aquelas músicas que tiveram as letras nos telões. Hugo se deleitou durante o show inteiro e foi gostoso de ver. Já escurecia e eu ficava cada vez mais com as mãos na frente da boca. Daquele meu jeito nervosinho, que revela toda minha apreensão.

A partir desse momento, as pessoas falavam comigo e eu quase respondia por intermédio do suor.

Já fiquei em alvoroço desde o momento em que foi anunciada a confirmação do show do Radiohead aqui em São Paulo. Traumatizada com a péssima organização da venda dos ingressos para os shows da Madonna meses antes, fui logo esquematizando um jeito de não correr nenhum risco de ficar sem ver a banda ao vivo. Imaginamos todos que esgotaria em poucas horas, imaginamos todos que a compra pela internet seria, mais uma vez, profundamente irritante.

Mas a compra pelo site foi liberada algumas horas antes do que anunciava a organização e o plano dos integrantes oficiais fila-radiohead-05-12-08-8da Caravana-do-Amor-Super-Mágico (de se revezar de 3 em 3 pessoas por 2 horas na fila até o dia amanhecer e a bilheteria abrir) não precisou ser posto em prática. Quer dizer, houve uma tentativa. E fizemos um picnic com direito a toalha xadrez, bolo (duro e que não deu certo) da mãe do Rá, Mei reclamando de frio, água e muita piada, que somando tudo não completou nem uma hora… Acabamos comprando todos os ingressos via Hugo, por telefone, exatamente assim, na situação dessa foto: sentados na fila, que se estendia beirando o Pacaembu e que somava aproximadamente 50 pessoas.

Desse dia, 05 de dezembro de 2008, até domingo passado, muita curiosidade. Curiosidade é a palavra certa. Na verdade, pensando agora, acho mesmo que não esperava uma coisa ou outra do show do Radiohead, simplesmente porque não sabia o que esperar. Só sabia que ver qualquer coisa que eles fizessem no palco já seria uma maravilha. E eu, que já esperava há muitos anos por ouvir ao vivo as músicas que me acompanharam em tantas lágrimas e saudades e em muitas alegrias também, comecei a esperar com uma intensidade muito maior pelo dia que cada vez mais se aproximava.

A cada vez que ouço minhas músicas preferidas da banda, já choro por dentro. O coração imenso de felicidade esperando pela apresentação de amanhã. Já li tudo sobre a turnê, já vi todos os vídeos com fragmentos de shows e a maquiagem à prova d’água já pronta para evitar o rosto todo borrado.
Acho que minha música preferida de hoje é Fake Plastic Trees (que foi substituida por Creep no show de ontem no Rio) e se eles tocarem aqui em São Paulo vou sair do Jockey Club com os olhos mais inchados do que o do Thom Yorke.

Se bem que algo me diz que de qualquer jeito vou sair do show com cara de quem foi atropelada por um trem de carga.

Assisti na terça-feira ao filme que deu a Penélope Cruz o merecido Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ouvi de algumas pessoas o argumento lamentoso de que a participação teria sido muito pequena, mas confesso que reconheceria o ótimo desempenho da atriz mesmo se sua atuação fosse em uma ou duas únicas cenas.

A história é bem simples: duas amigas norte-americanas em Barcelona. Vicky (Rebecca Hall) prepara o mestrado sobre arte e cultura catalãs e está prestes a se casar; Cristina (Scarlett Johansson) é a aberta a novas experiências e que pensa não ter grandes talentos. Depois de devidamente apresentadas pelo narrador, quem entra em cena é o sedutor artista plástico Juan Antonio (Javier Bardem), que vive uma relação complicadinha com sua mulher, a maravilhosa Maria Elena (Penélope Cruz). O filme começa quando ele convida Vicky e Cristina para uma noite de vinho, passeio e sexo na cidade de Oviedo e o convite é aceito.

História contada, vamos aos comentários.

1 – A narração. Woody Allen usa a técnica teatral de Brecht para descrever os personagens e o desenrolar da história com uma voz em off e neutra. Faz isso para que não haja dúvidas em relação a quem são aquelas pessoas e quais situações estão vivendo. Os fatos são aqueles, não há mistério para o espectador tentar adivinhar. As pessoas também são exatamente aquelas: a moça comportada e certinha, a moça disposta a experimentar todas as coisas da vida sem preconteito, o homem maduro e sedutor e sua mulher louca, impulsiva e inconsequente.

Li mais de uma crítica sem fundamento em “jornal sério” dizendo que Woody Allen estereotipou demais os personagens. Mas eu entendo e o defendo aqui no meu blog que não é nada sério: o diretor, de forma genial, rotula todo mundo para que lhes sobrem as nuances da personalidade, que vão aparecendo escancaradamente. As nuances, aquelas que todos nós temos.

2 – A trilha sonora. No filme tem Paco de Lucia e outras maravilhas embaladas pela guitarra española. As duas únicas músicas que têm letra são de Giulia y los Tellarini – “La Ley Del Retiro” e “Barcelona”. Esta última, revela tudo o que é o filme logo na primeira frase: Por qué, tanto perderse, tanto buscarse, sin encontrarse?
O filme começa e termina com a mesma música. Com a mesma energia. Por isso também até entendo o incômodo das pessoas que não gostaram tanto do filme. Como assim, acontece um monte de coisas com um monte de gente e no fim o filme acaba exatamente do jeito que começou? É, acontece. É verdade que muito mais na vida real do que nos filmes produzidos aos baldes em que sempre há a obrigação de um final feliz, mas acontece.

3 – O começo e o fim. Além de ser a mesma música, é a mesma cena: aeroporto e duas amigas muito parecidas, mas que no assunto amor são muito diferentes. Uma procurando algo que sabe que não vai achar e outra tendo a certeza de que aquilo que já achou é o que procurava, mas que não necessariamente lhe basta.

O personagem alter-ego do diretor dessa vez é Vicky, a moça metódica, que tem tudo sob controle e que quando vê o trem descarrilando entra em pânico, trava, pira. E passa todo o tempo tentando encontrar alguma solução ou justificativa para o acontecimento ou sentimento imprevisto.

Pensei que fosse uma comédia, mas beira o drama. E não que não haja humor, porque há e muito, mas é uma espécie de humor cruel. Um humor que a gente ri mas ri da gente mesmo. E talvez seja esse o fator que dá a impressão de que Woody Allen a cada filme parece conhecer mais e melhor a essência humana, suas buscas, aflições e paranóias.

Filme delicioso. De ver e rever. E de baixar a trilha sonora inteirinha.

Clarear

Prefiro o luscofusco do que todas as coisas muito reveladas. Dou mais valor aos momentos sombreados do que os escancarados. Prefiro as palavras não ditas, os entendimentos dos olhares, a dúvida do sim e do não. Porque do que eu gosto mesmo é da insinuação, daquilo que depende também da interpretação do outro.

Talvez isso tudo tenha alguma relação com meu empalidecimento. O fato é que minhas cores preferidas foram desbotando com o tempo. O verde, minha paixão maior desde a infância, de bandeira que era, virou água. O vermelho intenso que mantinha dentro de mim desde a chegada da adolescência, de sangue virou vinho. Do lilás, que só chegou depois dos 25 anos, só sobrou o tom opaco.

E só me percebi sem cor ao mastigar por dias, semanas, quase um mês inteiro, uma obra-prima de Titane chamado Ana. Do começo ao fim o álbum é um primor e cada vez ouço descubro um detalhe que ainda não havia chamado minha atenção. Talvez ele, e mais nenhum álbum hoje em dia, fale mais sobre mim e pra onde minha vida está indo do que eu mesma falando numa cerveja ou numa carta.

São as minhas cores, as mesmas de sempre,  ganhando vida e clareando tudo de novo.

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