Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom – enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutúm – se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma ideia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume – quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: Uai, mãe, hoje já é amanhã?!
Escorregadio, de estranhamento, todo imprevisível. O meu tempo hoje é muito parecido com o das páginas de Guimarães Rosa. E a releitura me conforta.
Enquanto outras crianças pedem vídeo game ou bicicleta nova, Nara pede um livro e é feliz correndo a Saraiva enquanto escolhe, durante um período de quase 3 horas, seu presente de dia das crianças.
E nesse 12 de outubro, vendo a menininha grudada em Lewis Carroll, é simplesmente impossível não lembrar da cena final do Clandestina Felicidade, curta metragem baseado num conto de Clarice Lispector.
“Se você acordou de manhã é evidente que não morreu durante a noite. A felicidade começa com a constatação do óbvio.”
A frase do Millôr Fernandes e uma música do Tom Jobim vieram por e-mail num dia bem difícil. E assim lendo, parece meio boba, mas é a que mais cabe na minha vida daqui pra frente.
Saio do trabalho numa calorenta sexta-feira com os ombros tensos, precisando de um banho de banheira e noite de sono intenso mas, antes disso, decido parar no cinema mais próximo, querendo relaxar com uma boa história, me entreter com um bom roteiro pra sair da sala de exibição com o corpo mais molinho do que havia entrado. Mas não, não é isso o que acontece com quem assiste na telona o novo filme de Sérgio Rezende, é bem o contrário.
Diferentemente de Carandiru ou Tropa de Elite, o filme não tem como foco principal o tema em que se propõe a tratar. A história é de Lucia, uma mãe que perde o marido, perde o padrão de vida em que se acostumou e tem o azar do filho fazer sua vida mudar completamente em 15 segundos. Todo o resto é cenário. Mesmo.
Andréia Beltrão está tão ótima no papel de Lucia que dá uma felicidade imensa do filme ser nacional e não ter legenda para que não se perca nenhum detalhe. E não é só a atriz global que tem uma interpretação incrível, todos os atores dão tudo de si e fazem um trabalho impecável. O elenco todo foi produzido pela atriz e fundadora do Grupo Tapa, Denise Weinberg, que acertou em cheio em todas as escolhas, além de também ter um dos principais papéis no filme e atuar como Ruiva. E isso explica o filme ser repleto de atores vindos do teatro. Lee Thalor é o ator que faz Rafa, o filho de Lucia. É ele que há anos é o queridinho do Antunes Filho e que fez sucesso em Foi Carmem.
Outra felicidade é ver Bruno Perillo (ex integrante do Folias D’Arte) como Professor, personagem que, por conta da minha falta de memória em relação aos atentados de 2006 e os figuras do PCC que tiveram mais destaques, não consegui identificar na história real. Ou então o próprio Professor nem tenha existido, nem o Marcola tenha sido do jeito em que aparece no filme, já quel o próprio Primeiro Comando da Capital e o dia em que São Paulo parou foi apenas usado como inspiração de Sérgio Rezende. E isso também fica claro nas cenas: no filme não há uma preocupação de ser fiel aos fatos exatamente como eles aconteceram. Afinal, isso tudo é pano de fundo. O que importa a história é de Lucia e seu filho. E que história bonita…
O filme é de verdade. É gostoso demais ver uma São Paulo tão fiel na tela do cinema. Da primeira cena, da casa de periferia de Lucia e Rafa com aquela rua tão paulistana, até o personagem de Chris Couto, a Ângela, tão classe média politicamente correta e, no fundo, preocupada somente com seu umbigo. Tudo muito palpável.
Como Hugo disse, é um filme de gente grande. Que pode ser colocado ao lado de produções como Os Infiltrados, de Scorcese, sem nenhum exagero. O filme é tenso, a trilha sonora entra no momento certo, é todo ritmado nas cenas, nos cortes, nas passagens. Prende o espectador e faz com que torçamos para os bandidos, para que eles consigam fazer dar certo o plano. Mas ao mesmo tempo, em nenhum momento lida com juízo de valores, nenhum personagem é bom ou mau, o julgamento de cada figura depende exclusivamente do grau de entendimento de mundo de quem assiste. E foi isso, no final das contas, o que mais me chamou atenção.
É o nacional “indicado para ser indicado”. E mesmo que eu continue achando que a premiação do Oscar não é a coisa mais importante (e nem que representa de fato as melhores produções), dessa vez eu torço, torço muito para que ele entre. Para que tenha bastante repercussão mesmo. Não só para que seja visto e admirado lá fora, mas principalmente para que seja reconhecido aqui dentro, pelos próprios brasileiros.
Vi há um tempo esses comerciais argentinos e virei fan da sopa, do tempero e dessa família delícia de batatas. A marca Lucchetti foi promovida com essas maravilhas de propagandas pela agência Madre e de um tempo pra cá, tenho lembrado diariamente desse primeiro vídeo que segue abaixo, tendo vontades imensas de sair de casa todo dia com um liquidificador na bolsa. Tive a oportunidade de experimentar sutilmente esta situação na cozinha de casa, no último aniversário do marido, fazendo uso de uma batedeira no preparo de uma cobertura que, não sei porque, demorou tanto pra ficar pronta, enquanto uma pessoa que nunca para de falar, falava.
Ahora, con ustedes, la fantástica licuadora:
Quando vi a propaganda da cozinha, gargalhei por conta da identificação total. Entendo muito bem a euforia dela quando aparece a pia limpinha e brilhando.
O marido con corbata que só cabe na cena com a condição de não fazer comentários dipensáveis também é ótimo.
En cualquier lado…
E por fim, se houver alguém que ainda não tenha se convencido de que a tal sopa é realmente a melhor coisa da vida, aqui vai a Master of Sopa…
De hoje em diante quando alguém me perguntar se eu faço evento de poucos dias, ou social de muitas horas de ralação no final de semana, minha resposta padrão será: eu frilo, mas com moderação. Porque não dá simplesmente pra ir pegando o que aparece, mesmo porque tem o meu trabalho de segunda à sexta que eu super priorizo, tem a faculdade, tem a casa, a família, os amigos, enfim… minha vida já é uma maratona mesmo sem trabalhos extras.
Daí eu concluí que nesse contexto só é possível pegar trabalhos bons, que dêem algum prazer e diversão, além da grana. Que sejam um desafio, uma coisa super nova que eu nunca fiz, ou que fiz e gostei muito. Que envolvam luz boa pra poder brincar sem ter que contar obrigatoriamente com um flash externo, que eu possa contar com pessoas legais e, no caso de evento social, que elas não sejam resistentes na timidez na frente de uma câmera fotográfica, que não insistam em travar um sorriso único posado para as fotos.
Essa semana parecia que nunca mais ia acabar. E todas essas exigências acima, que sinceramente considero bastante razoáveis, vieram dos trabalhos que fiz no decorrer da semana. Cobertura de feira ou congresso não é das coisas mais fantásticas que há para fazer, mas dá pra exercitar alguma criatividade, e essa limitação faz parte do próprio trabalho e costuma compensar no bolso na hora de receber. Agora aniversário de 15 anos, mesmo sendo da sobrinha de uma amigona de infância, já seria terrível se fosse de uma debutante tradicional, mas como o que é ruim sempre pode ser piorado, a festa foi uma micareta. Sim, uma micareta, tipo chiii-cleeee-te-ôba-ôba. E como a bizarria nunca tem limite, fomos avisados que teríamos que usar abadás um dia antes. E sim, FOMOS, plural, nós: eu e Hugo, porque não basta eu me envolver sozinha numa roubada caprichada dessas, tenho que incluir o marido pra fazer o vídeo. Só porque ele tem alergia e empipoca só de pensar em fazer evento social. Mas em relação a ontem, nenhum dos dois nega que nos divertimos, o trabalho rendeu e rolou uma sintonia bem bacana entre a gente.
Portanto, você que é uma pessoa amiga, não me pergunte se eu topo fazer as fotos de qualquer esculhambação levada a sério num momento meu de fragilidade financeira como o que me encontro, porque corre o risco de eu esquecer da tal moderação e fazer, mais uma vez, com a maior animação do mundo.
Mas hoje é domingo, amém. Dia de parque bonito e pertinho de casa. De cachora na coleira e filha correndo na frente. Dia de admirar com mais calma os tantos ipês amarelos do bairro onde moro. Porque se tem uma arvorezinha que adoro é essa, a do ipê amarelo, que vai deixando o cinza da calçada todo forrado de cor. Que tem época certa pra florir e quando flore, ai que alegria que dá.
Acho que se eu estivesse sozinha no meio do Japão com a temperatura abaixo de zero, sem mais ninguém conhecido, sem conseguir me comunicar para pedir informação, pra comer e beber, para fazer coisas e viver, ainda que eu estivesse numa situação dessas, não estaria tão sozinha e tão profundamente triste como me sinto agora.
Eu preciso preciso preciso dizer que eu adoro Marcelo Camelo. Adoro muito, e muito mais ao vivo com aquela bandona linda que é o Hurtmold. A Sica disse que é impressionante como às vezes um encontro de músicos pode ser tão mágico, como este. E eu concordo plenamente. Suspirei em diversos momentos do show. Adoro o repertório, adoro o trabalho solo, adoro muito o jeito dele acenar e agradecer os aplausos.
Sempre que ouvia o início de Mais Tarde esperava Bethânia entrando com seus Doces Bárbaros cantando Esotérico.
Mas no show, a única coisa que eu pensava era na letra linda que começaria logo logo só para cantar inteirinha, me balançando naquela cadeira dura de madeira do Pompeia.
No show, rolou um momento quermesse da noite, quando ele chamou Felipe, um moço comum da plateia que havia entrado em contato com a produção via email fazendo um pedido. Felipe subiu no palco e contou dos 3 anos e meio de amor pela namorada. Na sequência, chamou Dani – a namorada – no palco e enquanto ríamos e Sica disse só falta pedir em casamento, se ouve em todo o teatro: você aceita se casar comigo? Ah, que delícia, só faltou o algodão doce colorido.
Camelo cantou poucas das que eu mais gosto em sua fase bandinhachataLosHermanos. A Outra, Além do que se vê (com a qual encerrou o show de forma linda e beeeem prolongada) e mais duas que eu realmente nunca soube o nome. Nunca gostei do jeito bêbado de cantar do Amarante, não sou fan das composições dele, já o Camelo…
A banda posicionada em círculo em volta de um Camelo com banquinho e violão, a maioria das músicas cantadas em coro por um público feliz e de idade bastante variada. Para quem saiu do trabalho numa sexta-feira de trânsito intenso, cruzou a cidade para ir ao show sem muita expectativa, agregar mais uma paixãozinha musical das boas é um lucro e tanto.
Cheguei em casa agora e preciso te contar um pouquinho de tudo o que meus olhos viram nessa noite e as lágrimas que eles com muito esforço evitaram. Costumo ter problemas com a relação com artistas que admiro muito. Os que não têm tanta significância pra mim, passam batido, como eu acho que tem que ser. Mas os que admiro muito, meudeusdocéu, se eu tiver que me relacionar por conta do meu trabalho ou outra oportunidade, é sempre um enrosco dos grandes. Tenho tendência a gaguejar, sair correndo, ficar com uma expressão fixa de sorriso esticado e idiota, saio tropeçando nas minhas próprias palavras.
Hoje foi um pouco diferente. Acompanhei o ensaio do espetáculo Naturalmente, o novo trabalho daquele pequeno grande moço de pouco mais de um metro e meio chamado Antônio Nóbrega. Mais uma vez meu peito se encheu de orgulho por fazer parte dessa multidão que habita esse lugar lindo chamado Brasil. Esse lugar de tantos ritmos, do sertão tão poético, das danças com tantas referências e de culturas populares tão de pés no chão.
Não vou falar muita coisa, tenho que ir dormir, pequeno diário. Mas o que mais me chamou atenção foi a relação dele com os músicos e com as filhas dançarinas. Eu sou apaixonada por pessoas doces, generosas até no tom da voz. Que pessoa linda, que pessoa linda, eu repetia mentalmente! Incomodado com o risco de aparecer demais sob determinada luz direcional, atento às sugestões de mudança de passos, entradas e saídas ou das próprias músicas. E quando ele fala de mudar algo, o mundo para, todos os olhos e os SIMs são pra ele. O espetáculo tem muito texto bonito, recitado por um Nóbrega sorridente e de roupas de tecido molinho, textos que são observações dele sobre experimentações e pesquisa da dança contemporânea.
Então fica a dica para quem estiver com algum tipo de crise com o país, ou para quem estiver precisando conhecer mais ou se apaixonar pela nossa cultura popular. Aquela porção de músicos no palco, as duas meninas lindas – Marina e Maria Eugênia – fazendo performances tão delicadas junto com a presença de Nóbrega, nobre e doce, fazem com que a gente saia do teatro cheio de esperança e amando viver no Brasil.
Pra te fazer feliz por um instante
Entregaria o tempo em suas mãos
Ontem no teatro do Sesc Vila Mariana ouvi Barbara Carlotti cantando algumas músicas em português com um sotaque gracinha de francesa. Nunca tinha ouvido “Em suas mãos”, do Renato Godá, não conhecia. E pra falar a verdade, nem sei se gostei da música, nem sei se gostei do músico brasileiro, que teve uma participaçãozinha bem pequena no show. Só sei que mesmo depois de um repertório todo lindo em francês e inglês, Tom Zé e Tom Jobim interpretados numa voz linda, Henry Miller e Anaïs Nin belamente jogados entre músicas, foi a frase em itálico que não me saiu da cabeça.
Porque é muito visual. Dar de presente o tempo para outra pessoa. O tempo que quiser, o tempo que precisar, todo o tempo do mundo. Dar tempo indeterminado e daqui um minuto ou daqui uma vida inteira, quando este tempo que agora está nas mãos do outro ter sido suficiente, estar presente.
O primeiro dia sem minha mãe nasceu claro e no céu o sol se escancarou. Andei mais de hora pela Av. Jabaquara procurando uma padaria que me servisse um café expresso depois de horas sem colocar qualquer sabor na boca. Enquanto o vento forte e gelado empurrava minhas lágrimas com força em direção a orelha e pescoço eu andava com passos firmes e olhando as pessoas de frente, com o rosto todo molhado, nariz vermelho, olhos inchados. A pele ardia inteira como nunca havia ardido. Eu tremia por dentro. Mantive sem querer a mordida apertada, os dentes de cima contraindo com força os de baixo, o maxilar doendo e eu sem perceber. Ficaram pra trás quatro ou cinco padarias, mas o café da Trigal Pães e Doces, além de ter sido o mais forte que já tomei em toda minha vida, foi a única coisa que ingeri durante os dois dias que viriam. Na minha cabeça ecoava, não sei bem o porquê, um Alceu Valença como se fosse uma reza, uma ladainha, uma procissão de fé naquela manhã fria.
Dia 29. Do inverno junino da morte da minha mãe, do meu nascimento apressado em dezembro – já que nasci 15 dias antes da data prevista, do aquariano e sonhador janeiro do meu pai. Para cantar parabéns, só sobraram os meus 29. Imagino que esse Saturno dos meus 29 anos seja dos mais cruéis.
Hoje faz 15 dias. Ainda não sei bem em quê acreditar, em qual santo, em que Deus, não sei qual verdade inventar. Tenho passado a maior parte do tempo entretida com o trabalho e quando minha mãe toma conta do meu pensamento, mais ou menos de quinze em quinze minutos em dias bem ocupados, penso que não me arrependo de nada. E essa deve ser a parte mais sincera e crua de todas as coisas que penso. Não poupei abraços quentes e apertadinhos, sorrisos diários, surpresinhas sem data marcada, gargalhadas nas tardes monótonas de domingo. Não poupei amor, pelo contrário, hoje ele transborda inteiro de mim, roda ruas e pessoas mas não encontra nenhum destino suficientemente grande capaz de abrigá-lo.
Sei que perdi meu maior colo, minha melhor companhia para o café com leite e pão quentinho com manteiga, perdi meu maior ouvido pra desabafos, a mão do maior carinho que tive. Perdi a vovozinha do coração da minha filha, perdi o melhor e mais paciente destinatário para as intensas cartas cearenses que escrevia toda semana. Perdi a minha maior motivação para enfeitar a filha todo final de semana só para, depois ou antes dos eventos, passar lá e mostrar as novas roupas da minha bonequinha, contar novas histórias e descobertas, perdi minha alegria imensa de mostrar feliz a pessoa linda que a minha melhor e mais perfeita obra, Nara, está se tornando a cada dia que passa.
Não sei o que dói mais, lidar com as minhas faltas e saudades ou ter contado para uma menininha de 7 anos que sua vovó preferida, com quem ela passava todos os dias, voltou para o lugar de onde ela e todos nós viemos. Como explicar que a dor é natural e que ficar triste faz parte? Como dizer a uma menininha linda que lembrar e sentir saudades para o resto da nossa vida é uma forma de mantê-la viva dentro do coração da gente? Como explicar que o amor nunca acaba? Que o nosso amor só aumenta e as saudades trituram o peito da gente?
Perder a mãe é perder o chão, teto e paredes também. É ganhar uma liberdade tão completa, mas tão, que ninguém nunca quer. A vontade de ir para a Patagônia para nunca mais voltar é imensa. Para viver uma vida distante da minha, para mostrar outras culturas para Nara na tentativa de diminuir esse rasgo sangrando que a falta da minha mãe causa dentro da gente. Porque nenhuma saudade pode ser comparada com esse vazio na minha alma, com as minhas mãos geladas sem as mãos branquinhas dela fazendo carinho enquanto diz que tudo está caminhando para o lugar certo, para eu ser menos ansiosa, não ter tanta pressa. Para de correr um pouco, é o que ela me pedia. Mas a vida é uma correria e só assim eu sou feliz, e eu descobri isso e disse pouco antes de ir embora da casa dela, já no dia 29 de junho: eu descobri o que é felicidade, mãe, eu descobri. E passei muitos minutos contando detalhes do que eu fazia no trabalho, como são as pessoas lindas que trabalham ao meu redor e o porquê, pra mim, são tão lindas. E ela prestou atenção em tudo o que eu disse, me olhando quase sem piscar.
Já passava de meia-noite e meia, domingo para segunda, e a última coisa que ela me falou foi: não se atrase amanhã, a vida fica toda empacada todo dia que você se atrasa. Disse isso se referindo ao tempo que gastava no percurso de carro do Ipiranga até a São Judas, porque se preocupava com o horário de almoço da netinha. Vou fazer um peixinho e disse mais uma vez pra que não me atrasasse, a comida esfria e fica ruim. Fui embora, disse até amanhã. Lá da rua, olhei pra cima e lá estava ela dizendo tchau meu amor e acenando com a mão, como sempre faz. Estava frio, eu dei um tchau correndo e entrei no carro apressando a Nara que aproveitou melhor o tchau. Deu sorriso, disse eu te amo e jogou beijo.
Estava feliz, tinha visto a família inteira que se reuniu, de repente e sem combinar, apertadinha numa única mesa grande para almoçar. Todos os netos – alguns até com os namorados, o genro, a nora, os filhos. Todo mundo num dos domingos de maior tempo de comilança em volta de uma mesa. Coube muita coisa ali, política, pudim de leite, futebol, melancia, pavê, sorvete, raça de cachorro preferida, salada, twitter, café, bolachinhas, um frango com um creme maravilhoso, pão italiano, torta de morango.
Um pouquinho antes da 1h da manhã toca o telefone da minha casa, tinha acabado de entrar e estava subindo para o quarto. Meu irmão, o telefone de onde ele ligava era o da minha mãe. Pediu pra falar com o Hugo. E o meu corpo gelou imediatamente. Nara dormia. E quando o Hugo disse quase tendo um piripaque, quase sem voz, eu não entendi, não quis entender e só quando entrei debaixo do chuveiro, tremendo de bater o queixo, que eu senti. E doeu tanto que pensei que minha alma fosse escapar de mim. E por horas até pensei que tinha. Que estava por um fio. Como uma linha que criança segura forte na mão quando o balão de hélio quer escapar. Segurei assim minha alma. E entendi que minha estrada se rompia ali, que a estrada nunca mais seria a mesma a partir daquele instante. Uma freada brusca me aconteceu, uma pancada forte na cabeça. Uma derrapada longa com cheiro de pneu queimado, um caminhão em alta velocidade em direção a outro. Era eu. E se bobear só um pouquinho, ainda sou eu. Uma bomba explodiu dentro de mim e desorganizou tudo, meus órgãos, minhas dores, minha felicidade. Meu sorriso nunca mais foi tão espontâneo. Mudou. Amadureci cem anos, envelheci quarenta. Levei cento e setenta tiros de metralhadora e sobrevivi. A morte também foi da Tatit. A Tatit filha da Dona Nena morreu aos 29 anos. Agora só sobrou a mãe da Nara. A minha própria morte afetou o ritmo da minha caminhada, comprometeu a visão e todos os meus sentidos.
Cresci na porrada, numa queda livre me espatifei em pedaços no chão e me vi gente grande. Terminei de virar adulta sangrando enquanto via de longe o corpo da minha mãe, com aquelas mãos branquinhas que eu tanto amo segurando flores vermelhas dentro do caixão.
Porque a ausência dói, a saudade é ingrata. Dar um beijo e um abraço bem apertado dizendo baixinho um mmmm de saudade depois de passar três dias sem vê-la, ou fazer carinho naquele cabelinho branco todos os dias era um privilégio só meu e de Nara. Privilégio mesmo, e disso eu nunca duvidei.
Minha mãe foi embora e me deixou órfã de música, de cinema com pipoca e namorado, de parque de diversão com maçã do amor, de festa junina com bandeirinhas coloridas, de carnaval em qualquer Pernambuco que possa haver no mundo, minha mãe me deixou órfã de outra possibilidade de vida.
Nunca temi tanto por um aniversário meu, ainda é julho e já não me sai da cabeça. Vou querer passar meu primeiro Natal sem minha mãe no meio da Floresta Amazônica, no Xingu, no Himalaia, nos Alpes ou no Sri Lanka. Não minto, não exagero. Vou querer tomar uma poção que me faça dormir desde a véspera do Natal até o décimo dia do ano novo. Porque quero evitar sentimentos que não façam bem e isso sim é exercício diário. E nesse período de final de ano, em que todas as feridas (até as mais cicatrizadas) se abrem e sangram tanto, quero encontrar outras maneiras de me sentir bem, de não me estragar, sem economizar oportunidade das pessoas que amo serem felizes.
Decidi não dar espaço em mim para sentimentos egoístas, os fedidos. Acabei de vez com o meu ego que vivia cambaleando, feridinho, fedidinho, coitadinho, todo inho. Esfaqueei de vez o ego e fim, é assim que tem que ser. E no momento em que estiver acordada, bem acordada como estou agora e como pretendo viver grande parte do resto dos meus dias, a única coisa que quero é amor. Amor de verdade, representado em qualquer tipo de relação. Porque é possível, é sempre possível.
Dos amigos que eu menos esperava solidariedade e carinho ENORMES foi de onde vieram os ombros mais generosos e quentes. Não vou citar nenhum nome, mas quem recebeu (e ainda recebe) abraço forte, ligação, sms, email ou qualquer tipo de recado com meus agradecimentos sinceros, aposto que se reconhece aqui. Isso também eu chamo de amor sincero. E é tudo e só o que desejo oferecer e ganhar. Amor leve, sem obrigação, sem esforço, sem dores musculares, sem pressa ou ansiedade, sem pesar. Com a mesma sinceridade com que amei e pra sempre vou amar minha mãe.
Porque a vida é muito frágil para se encerrar nela mesma, efêmera demais.
E amor não, amor continua. Para sempre. Para todo o sempre.
Sexta-feira, 21h55. Eu de jaqueta, bota, rosto sem maquiagem nenhuma, nariz vermelho. Ele de malha de lã, all star velhinho e mãos quentinhas. Av. Paulista, 15º andar, frio, pão de café e vinho. Parte das duzentas pessoas ainda se acomodavam, nós em banco alto na beira do balcão. As luzes se apagam e algumas vermelhas se acendem. O cabaré espera a diva da noite, que chega calada, fumando charuto, com uma taça de vinho tinto na mão.
Nunca havia visto Cida Moreira ao vivo. Descobri a cantora ainda no teatro, quando integrava o grupo que optava em trabalhar e estudar os textos e a estética0 de Brecht. Ela é uma atriz, grandiosa, ainda que não tenha DRT e nenhuma formação teatral. É uma intérprete maravilhosa de textos, de músicas e músicos. Se apropria de tal forma das canções que parece que come, rumina, dorme com a letra e acorda com o sentimento exato e tom perfeito para cantar a música. A música passa por ela, entra, toma corpo na sua história, cria um vínculo, um link com sua própria essência.
Os óculos ovais, o cabelo penteado bem vermelho, Cida Moreira é enorme, gigante, densa. Enquanto o ator Antônio Arroeira recita entre o público um poema de Cecília Meireles, a diva que parece estar num pedestal pois, mesmo estando no mesmo nível que o público, observa de cima, blasé, as pessoas sozinhas ou acompanhadas que estavam ali para ouvir sua voz e seu piano. O ator desliga o microfone e Cida se põe a tocar. Um pianão (mesmo que teclado, por conta da impossibilidade de subir um piano pela interminável escada do Sesc Av. Paulista) entra nos nossos ouvidos. Um tango belíssimo no qual ela pronuncia, ora murmurando ora berrando, palavras em francês. Na sequência, o seu mais que querido Tom Waits entra no repertório e já emenda com a trilha sonora lindíssima do filme Blade Runner, que aparece com um tom meio louco, meio provocativo, combinando com o honesto Carbenet Sauvignon que eu girava pelos dedos. Entre uma música e outra, Cida reclama da falta que sente das notas que não cabem no teclado e que são exclusividade dos pianos, reconta a história de seu amor maior pela obra de Bertold Brecht, faz uma graça, diz que não canta Babaloonem morta.
Entre um gole e outro de vinho, canta Speak Low, música consagradíssima na voz de Billie Holiday e, aqui no Brasil, mais conhecida com Marisa Monte em seu primeiro álbum, lá em 1988. Cantarolei junto feliz, feliz e emocionada, porque é das músicas mais gostosas do mundo. Cida Moreira cantou uma única música em português, Chico Buarque, e ela não podia ter uma letra e uma interpretação mais filhadaputadelinda. Uma canção desnaturada é a música que vai me fazer chorar por toda minha vida, em qualquer lugar que eu estiver e lembrar dessa música na voz de Cida vou desaguar sem esforço. Impossível ser mãe e não se emocionar, impossível menstruar e ovular e parir e não doer com a composição. Cida diz que Chico é o nosso Brecht, que é quem melhor escancara todas as dores humanas, e eu concordo demais.
Em pleno cabaré à la anos 20, com batom vermelho e colar brilhante, vai revelando novas paixões musicais, como Amy Winehouse, de quem pega Back to Black e canta, e canta de arrepiar. Apresenta com muita alegria um moço que é amigo da filha, de 22 anos e que estuda na Usp, e canta com ele Life on Mars, do Bowie. E foi nesse momento que, de tanto que escorria lágrima do meu rosto, molhei o caderno da minha colega de profissão que fazia suas anotações bem ao meu lado. Pedi desculpas e recebi um sorriso de compreensão de volta.
Pra quem não tem a menor ideia de quem é Cida Moreira, aqui vai só um trecho desse espetáculo:
Uma garrafa de vinho e uma embriaguez que dura até agora e que vai se estender para o infinito da minha memória. Saí de lá com a alma fortificada, robusta, me sentindo orgulhosa por ser tão sensível e refinada nos meus gostos musicais. E feliz, sobretudo, por ter a melhor companhia, que sempre topa dividir tudo comigo, o copo cheio e o vazio também. E que mesmo comentando no final que sempre se acha meio medíocre depois de viver esse tipo de experiência artística, me dá de presente o melhor dia dos namorados que já tive em todo meu histórico.
Com a filha de João
Antônio ia se casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar…
Mais um ano se passou e você esqueceu de fazer aquela simpatia pra Santo Antônio no dia 13 de junho? Mas que coisa! Mas ó, tudo bem, quem é que hoje em dia acredita que Santantônio pode ajudar tanto assim a achar o amor da nossa vida se ele mesmo perdeu a noiva pra Pedro? Portanto, se desespere não, porque quem ajudará a encontrar a alma gêmea é Pedrão, o espertão, que se deu bem e fugiu com a filha de João.
Pois então, vamos lá. O que você vai precisar? – 3 copos transparentes: 1 com água, 1 com um punhado de terra e 1 vazio. – Uma aliança, pode ser do pai, da mãe, do irmã, uma das duas que a vizinha viúva carrega no mesmo dedo, pode ser a do seu casamento anterior, vale qualquer coisa. – E por último, uma segunda pessoa para embaralhar os copos.
Primeiro você prepara os 3 copos. Fecha os olhos e segura com força a aliança, pensando em Pedro. Enquanto isso a pessoa que te auxilia embaralha a ordem dos copos e pede para que você escolha um. Você escolhe e diz: É este! A pessoa tem que perguntar: Tem certeza que é esse mesmo? Veja bem, é importante que a pessoa pergunte se você tem certeza. Se você ficar na dúvida pode dizer que não e tornar a escolher outro, mantendo os olhos fechados. Se você sentiu firmeza no copo escolhido, deve falar: Siiiiiiiiiiiim e em seguida colocar a aliança dentro deste mesmo copo.
Abra os olhos. Se a aliança estiver no copo com terra, sorte, muita sorte a sua. Encontrará o hóme ou a muié pra amar pro resto da vida e gastar dinheiro porque a terra indica posses, propriedades, l’argent. Se você tiver enfiado a aliança no copo com água, sorte pero no mucho, encontrará o amor da vida mas ele só vai poder te oferecer água mesmo, não se iluda sonhando com uma taça de vinho de Rioja nem com outras maravilhas. Agora, se você conseguiu lançar a aliança no copo sem nada e ouviu o tilintar do anel no vidro, chuchu, nenhuma sorte pra você, não aparecerá amor nem abonado nem desabonado. Nada de amor esse ano, passar bem, ponha o foco e toda energia no trabalho e volte sem falta no próximo dia 29 de junho.
Uma observação importante: A simpatia só é válida se der resultado positivo, super positivo. Se não der, quem é que acredita mesmo nessa coisa de simpatias?
Continuo sendo aquela pessoa lá dos meus depoimentos de orkut, que quer beber o mundo num gole só. De segunda à sexta a vida tem pedido água, é verdade. O que salva é aquela cerveja com o amigo que liga no fim do dia dizendo: me encontra em tal boteco que depois de tal hora vou estar lá te esperando. Ou aquele casal de amigos que me buscam de fusca com nome de Paçoca e me levam pra tomar caldinho de purê com couve e fazem toda a diferença.
Final de semestre, trabalhos, provas, prazos. Preparação da Festa Lanterna na escola da filha, passeios, eventos. Sonho em praticar Le Parkour diariamente por chegar na rampa do metrô Belém faltando 5 minutos pra eu entrar no trabalho. Aos sábados a correria ainda existe mas sempre envolve diversões culturais. Mas é de domingo que nenhuma preocupação com qualquer trabalho, nem a necessidade de estudar para qualquer prova, ou bagunça de casa que esteja com urgência de ser arrumada, nada nada nada me faz deixar de dedicar o domingão exclusivamente para atividades com Naróca. Pode ser ir ao parque e rolar na grama, pode ser espalhar papéis pelo chão e ir pintando, pode ser andar de bicicleta, assistir a um filme comendo pipoca, pode ser tudo isso e mais alguma coisa. Mas sempre que estamos de bobeira, o pedido da menininha tem sido sempre o mesmo: fotografar.
Já faz tempo que deixo Nara fazer fotos de coisas e pessoas que ela gosta. Sempre que vê uma paisagem ou um recorte que acha bonito ou interessante ela solta um “olha que bonito, mamãe, dá uma vontade de fotografar, né?”, o que me fez começar a carregar comigo uma compacta na mochila, já que andamos muito de carro, cruzando a cidade todos os dias. E ela já sacou várias coisas e já tem lá suas preferências. Não gosta da luz forte do flash, descobriu que os “borrões” quando indicam movimento podem ser legais, descobriu que foco é uma coisa importante – e não só na fotografia. O olhar dela está mudando, amadurecendo, expandindo e isso é muito visível. Com a alfabetização pulsando, olhar placas, indicações e entender, Nara descobre as mensagens, lê o mundo.
Em suma, este post é só pra dizer que minha filha me enche o coração de alegria cada vez mais e isso é muito sem fim.
Hoje ela me contou que prefere a Nikon, mesmo sendo mais pesada, do que a Canon.
Quase ia falando os detalhes da vida para justificar que sim, esta é uma das fases mais felizes que já vivi, se não for a mais feliz. Quem me vê falando pode perceber isso nos olhos brilhando, no sorriso largo, na ansiedade controlada sem nem precisar de prozac. Meu antidepressivo é me alimentar do amor que sinto por algumas pessoas. Algumas poucas. E que não tem fim.
Rosa – A Corajosa – me abandonou. Era ela quem limpava minha casa, vinha uma vez por semana. Chegava entre 8h e 8h30 e saía só quando todas as coisas estivessem limpíssimas. Cobrava 50, mas eu dava 70. No meu aniversário foi embora só quando algumas pessoas já haviam chegado, ainda ajudou com a carne-louca e na preparação da mesa.
Do interiorzão de Minas, ela sempre começa qualquer frase com um mas num é que… Tem três filhos, o mais velho Ântony. Acentuado, assim mesmo. Rosa marcou minha vida, ela foi a primeira pessoa que limpa a sujeira que eu faço na casa e eu não me sinto nem constrangida nem… constrangida.
Rosa sempre dizia mas num é que esse seu apartamento é muito maior que muita casa que eu já limpei?! e eu respondia sorrindo, adaptando o jeito de falar: E num é, Rosa?
Rosa disse que não viria mais, problema de coluna. Que continuará trabalhando uma vez na semana na casa de uma senhora que virou amiga, pois há anos trabalha pra ela, mas é só por consideração mesmo. Outro dia Rosa ligou. Disse que precisava pegar as caixas do aparelho de som que eu dei e ela já havia levado. E disse que em retribuição ao presente, fazia questão de limpar mais um dia minha casa, sem cobrar nada. Falei que viesse. Veio no dia seguinte, com os três filhos, era janeiro e estavam em férias. Deixei minha filha com ela e avisei o horário que minha mãe apareceria. Fui trabalhar. Quando voltei, nada de mãe durante o dia inteiro e a filha e a cachorra estavam quietinhas e quase tristes, cada qual no seu canto. Os meninos maiores fazendo guerra de almofada, calçados em cima do sofá e a tv beirando o último volume, Rosa cozinhando e pondo a mesa. O menino mais novo, Rauã Elias, engatinhando, entrando e saindo dos quartos com uma banana na mão. Assim que entrei, quase pedi desculpas por ter errado a casa.
Rosa cozinhou arroz, feijão, frango, purê de cenoura e preparou uma salada. Fez Tang também. Arrumou suas coisas, pegou as caixas de som e pediu baixinho com cara do Gato de Botas naquela cena do Shrek: você pode me emprestar aquele disco do Roberto Carlos? Você me desculpa, T., mas foi por ele que eu vim hoje.
O sorriso mais bonito que Rosa podia dar. É seu, Rosa, obrigada por tudo e boa sorte. Me abraçou e foi feliz da vida para o ponto de ônibus pegar o Santo Amaro com seus três filhos, duas caixas de som e seu Roberto Carlos preferido debaixo do braço.
Vem molhar meu colo, vou te consolar
Vem, mulato mole, dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer onde é que está ton soleil, ta braise…
Porque apesar de estar sempre correndo atrás de novos sabores e emoções em paixões que vou agregando na vida, definitivamente eu não abro mão do posto quase inatingível que têm os meus maiores e mais antigos amores.
Enquanto uns dizem que o tempo não para
Outros dizem que o tempo não passa de ilusão…
Eu ando relativizando tudo, até o próprio tempo. Já não tenho mais a precisão de quanto tempo vale, no meu corpo e no meu sentimento, 1 ou 2 ou 10 anos. Tudo que é passado virou ontem, simplesmente ontem. E ontem é uma coleção bem grande de coisas empoeirando, quebradas, velhas ou inutilizadas. O passado só serve pra contadores de histórias. E olhe lá.
E pra você, o que é o tempo? Qual é a sua atual relação com ele?
Para todos que têm crianças no convívio, aqui vai uma dica pra lá de boa. Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto resolveram se juntar para a construção de um projeto bem interessante, intitulado Pequeno Cidadão, de músicas para as nossas crianças de variadas fases.
E não é só a idade do público que varia. Tem música para todos os gostos musicais, o sambão aparece em Carrinho por Trás, o eletrônico ganha espaço em Bonequinha do Papai, a cantiga de dormir vem com Meu Anjinho e, olhem só, até o heavy metal teve sua vez em Larga a Lagartixa.
Nara adorou todas as músicas, mas a que decorou no primeiro dia foi Pequeno Cidadão. Sol e Lua me fez chorar por me fazer pensar que em breve, muito em breve, vou ter que lidar com a primeira dor de cotovelo ou experiência de algum amor não correspondido na vida da minha pequenininha. Um sentimento semelhante aconteceu enquanto ouvia Tchau Chupeta, por representar muito bem essa questão da superação das fases, o crescimento, a libertação dos elementos infantis um a um… Me brota lágrima nos olhos e viver tudo isso é muito bonito. Das coisas que eu mais amo na vida é ser mãe.
Bom, se você não conhece ainda, vale muito a pena ouvir tudo o que está disponível no myspace. Se depois de ouvir tudo você tiver gostado muito e ter a sorte de estar em São Paulo, aproveite porque eles se apresentarão no Sesc Pompéia sábado e domingo por um precinho bem do bom.
Nem preciso falar que vou. Mesmo porque só a possibilidade do projeto vingar e não ficarmos esperando exclusivamente por novidades de uma única dupla que faz músicas infantis de qualidade já seria mais que suficiente pra eu apoiar.
A esperança é um artista de rua, cru, grosseiro, popularesco. Pinta o rosto, canta, toca, interpreta, imita, faz malabares. A esperança é maravilhosa e podia ter nascido na Commedia dell’Arte. É atemporal, está ali acessível sempre, no meio de todos os caminhos. É só olhar pro lado pra ver.
Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
e um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
que nunca é o que se vê quando se abre a janela.