E a vontade era de sair. Sair do trabalho, sair de casa, sair de sua vida e deixá-la toda para trás e se entregar ao sabor novo de vida com cheiro de terra molhada. De asfalto molhado. De mormaço subindo e esquentando os pés mesmo com eles dentro de meias e sapatos. Olhou para a janela enorme, paisagem já de algum tempo. Se aproximou. O céu cinzento parecia bem próximo ao décimo quarto andar, de onde podia se ver aquele pedaço de rascunho mal feito que era sua cidade natal. Conseguiu olhar ao contrário, pra dentro de si. Procurou mas não achou. Seu coração. Que pulsava mas não estava ali. Lembrou de seu amor. Distante. E tal distância tinha o peso de apertar aqueles mesmos 8 números. E depois não era possível saber o que haveria. Caixa postal direto? Ocupado? Cairia a ligação imediatamente? Teria a pessoa coragem de nunca mais atender aquela seqüencia de números que tantas vezes foi esperada no display de seu celular?
Nesse momento, a única música que havia era a que se podia imaginar, da chuva lá fora, da saudade, da vontade travada. Teria aquela filha da puta deletado todo o histórico? Teria ela bloqueado todas possibilidades de contato com ele? Seu olhar fugiu e foi cair naquele aparelho mudo, jogado em cima de uns relatórios. Voltou à mesa e enquanto fazia as coisas de todo dia, continuou olhando, sentado em sua cadeira no décimo quarto andar de um prédio comercial.
Não vibrou. Nem o telefone, nem ele. Por dias.
Desviou o alvo mais próximo de seu olhar. A cidade era maior.
Pra acompanhar ouvindo e baixar, se gostar: Just in time.
