Uma dupla feminina que funciona de forma excepcional: Sarah Polley + Isabel Coixet. De forma que eu não me lembro ter visto antes na versão diretora + atriz. Todos os diretores maravilhosos têm lá seus atores queridinhos. Isabel parece ter escolhido Sarah. No primeiro filme que vi da diretora, Minha vida sem mim, fiquei sem fôlego, vi e revi assim que o filme acabou da primeira vez. Um filme esteticamente perfeito, todo recheado de cenas lindas. Roteiro perfeito, trilha sonora perfeita. Que levante a mão quem não chorou ouvindo Sarah Polley cantando God only knows. Pensei que nunca mais viria um filme tão profundo – não só no argumento, mas como conjunto, obra inteira – é de uma beleza tão grande e profunda, tão! Tocante mesmo.
Aí fui ver Paris je t’aime. E sim, o filme tem lá seus curtas óbvios, que são maravilhosos mesmo, aqueles que 99% das pessoas que foram ao cinema saíram da sala comentando. Caso de Faubourg Saint-Denis, ou do último, pela ironia incrível e humor delicioso. Mas o que mais me deixou inquieta na cadeira, com a mão apoiada na boca e com os olhos muito abertos como quem não acredita no que vê, foi o sensível e lindo lindo lindo Bastille, cuja direção é exatamente da Isabel Coixet. Talvez pela música que a personagem cantarola ser uma das minhas preferidas de todos os tempos - Dans le tourbillon de la vie; ou se pelo casaco vermelho inadequado; ou se pela situação “de tanto se comportar como apaixonado, percebeu-se, mais uma vez, apaixonado” ou se simplesmente pelo fato do filme inteiro ser um monólogo interno e você quase não perceber. Mas foi aí que eu percebi que os sinônimos do nome dessa diretora absurda eram: delicadeza, sutileza, extremo bom gosto e sensibilidade à flor da pele.
Vi recentemente A vida secreta das palavras e o filme simplesmente não sai da minha cabeça. Sarah Polley mais uma vez protagoniza a história que não é só uma história de amor maravilhosa, é um filme sobre a solidão, sobrevivência, sobre a (in)capacidade de seguir em frente, porque afinal a vida continua. Continua, mas continua como?
O filme é genial. Genial desde os letreiros no comecinho do filme, na formação de palavras como love, fear, life, scream, etc., em cada nome que surge na tela. Genial do começo ao fim. Isabel Coixet é a diretora dos detalhes das cenas cotidianas da vida. E te deixa tão íntimo da situação, que o filme parece estar acontecendo bem ali na casa do seu vizinho de porta, de tão próxima e familiar que ela fica, mesmo boa parte do filme acontecendo numa plataforma de petróleo em alto mar. O tempo de cada cena, o silêncio a mais que sobra e é filmado depois de um diálogo – quase constrangimentos, quase vida real.
Bobeira falar que eu chorei de soluçar. Bobeira dizer que a frase do personagem vivido pelo maravilhoso Tim Robbins “eu juro que aprendo a nadar” me fez chorar tanto e tão intensamente a ponto de fazer barulho, como quando morre alguém querido. Bobeira dizer que a última cena me impediu de comentar o filme. Nenhuma palavra. A garganta simplesmente fechou e a torneirinha dos olhos continuou aberta durante mais uns bons minutos depois de todos os créditos terem subido.
Filme perfeito, atuação, direção, fotografia, roteiro. Todo perfeito! Mais, bem mais – eu arrisco dizer – que Minha vida sem mim.
Ah, menina…me faz uma listinha de filmes??? Rsrsrsrsrs!!!
E obrigada por me ajudar a desbravar o mundo dos blógues…
Beijocas,
Fefê
eu gostei deveras.
Tu já é a segunda pessoa hoje que fala desse filme, eu fiquei louca pra ver, mas passou pouco tempo na sessão de arte, vou tentar pegar em DVD :)
Esse filme realmente é surpreendente. Assisti na cadeira de Intervensões em crises, uma cadeira do meu curso de psicologia. O filme apresenta certas situações em que possui mais de um duplo significado!
De fato, o filme lida com situações traumáticas e o pior, é veridico!
Aconselho a assisti-lo
Beijos a todos
Filme espetacular.
Um retrato sensível da solidão, vida e motivações.
Também amei A vida secreta das palavras. Impossível não pensar nele como o raio de luz no meio da escuridão.
Pois é… “A vida secreta das palavras” também não sai da minha cabeça.
Gostaria de saber o nome da música que toca no fim do filme, quando já estão passando os letreiros. Você sabe?
Salut!
vi seu comentário e me animei a encontrar imediatamente o filme! foi a melhor coisa que fiz! o filme é belíssimo! muito obrigada!
Para começar, surpreendeu-me que o filme seja espanhol, não estou acostumado assistir filmes espanhóis a não ser Almodóvar. Escrito e dirigido por Isabel Coixet, profícua diretora de séries da TV espanhola e com passagem marcante pelo cinema. Tem Tim Robbins numa atuação limitada pelo personagem que está temporariamente cego e acamado, mas com presença bem expressiva e convincente. A canadense Sarah Polley, da qual só lembro de, “As aventuras do Barão Muchausen”, de 1988, está na área desde 1985 e é uma atriz fantástica. Considerando que todos os demais atores do elenco, com exceção de Tim Robbins, apenas marcam presença, a personagem Hannah/Cora de Sarah, carrega o piano e se sai muito bem.
Hannah tem 30 anos, é extremamente reservada e trabalha numa indústria de embalagens plásticas onde não se relaciona com ninguém. Depois de seu chefe insistir muito ela vai passar férias num modesto povoado costeiro, em frente a uma plataforma petrolífera. Lá, hospedada em pequeno hotel, toma conhecimento de um grave acidente na plataforma que a faz lembrar-se que é (já foi) enfermeira. Contrariando sua introversão, apresenta-se para cuidar de um acidentado Josef (Tim Robbins), que, devido à gravidade de seus ferimentos, não pode ser removido e está temporariamente privado da visão. Na plataforma, agora semi desativada por causa do acidente, existe um mini cosmo formado por vários homens, cada um com uma personalidade marcante.
Não é preciso lembrar que num espaço limitado como a plataforma, não há como esperar muito movimento, muita ação, portanto, o desenrolar do enredo fica por conta do jeitão com o qual cada ator conduz seu personagem. Hannah, ao desembarcar do helicóptero que a transportou, tem um brevíssimo encontro com médico que até então cuidou do paciente Josef, já que o médico deixa a plataforma no mesmo helicóptero que a trouxe. Neste encontro vemos o primeiro laivo da profunda dor que vai pela alma de Hannah. A iniciar os cuidados ao paciente, nota-se que ambos têm cicatrizes na alma, e ele, muito mais falante, tenta ser galante tenta um aproximação com a enfermeira, embora esta, no princípio, se recuse a responder qualquer pergunta pessoal. Parece um duelo em que Josef quer saber tudo dela, enquanto ela nada responde, se limita a ações puramente profissionais. Hannah descobre no seu quarto o telefone celular onde tem uma mensagem de uma mulher que está lendo “Confissões de uma freira portuguesa”, e que se diz apaixonada por Josef que lhe deu o livro.
Os dias passam, outros trabalhadores da plataforma mostram suas personalidades, o biólogo, o cozinheiro, o chefe, o zelador, o que cuida das máquinas, mas, o que conta é que Hannah vai rompendo o silêncio aos poucos, vai abrindo seu passado com pequenos gestos, monossílabos e atos os quais não passam despercebidos pelos outros, principalmente Josef, que também mostra que os esqueletos no seu armário o incomodam. As coisas vão se encaixando, de modo que ambos se vêem confessando suas dores e seus pesares, o passado que os acompanha é pesado e eles acabam, finalmente, abrindo-se um ao outro. Desnecessário dizer que encontram-se nas suas angústias e fazem uma catarse que os redime. Só que Hannah se recusa a assumir que gosta de Josef e, ao fim do tratamento, este é removido para um hospital e Hannah volta à sua vidinha insípida na fábrica.
Na verdade, o filme não é uma história de amor, é uma história de vidas despedaçadas por catástrofes (no caso de Hannah, guerra) causadas pelo próprio homem, e egoísmos que não levam conta o quanto podem prejudicar o outro, aquele que por estar ao lado não percebe o quanto um amigo pode ser falso. O fim da história cai no lugar comum que todos esperam e nada acrescenta à qualidade do roteiro e montagem excepcionais. É um ótimo filme. JAIR, Floripa, 01/09/10.