Claudio Tognolli. Focou a temática no jornalismo investigativo. Criticou a prática de utilização do documento público como ponto de chegada do trabalho do jornalista, quando deveria ser usado como ponto de partida. E comparou os instrumentos de apuração e investigação que hoje em dia a Polícia Federal usa com as ferramentas de quem não é autoridade, mas que vive de jornalismo. Diz que a competição é injusta e temos que tentar produzir as próprias investigações. Em relação ao segredo de justiça, sugere a quebra em todos os casos que haja interesse público. Dentro do assunto, a questão que mais rendeu foi o comentário em cima do perigo que é se posicionar em tempos de advogados sedentos por aplicar processos, situação que chama de “indústria” de processos contra jornalistas. Indica a leitura do site do Fernando Rodrigues e da ABRAJI – site que visa desmistificar o furo jornalístico. Tognolli parece ter perdido a esperança: diz que a internet veio para a população geral fazer a vez do jornalista, por conta do leque de possibilidades de publicar as mais diversas informações na rede. Compara a revolução da internet com a revolução francesa, ao invés do rei, são os jornalistas que estão sendo decapitados pelo povo. Fala sobre a mudança do sistema de mundo à la carte para o monte seu prato, com esse novo tempo em que o “eu”cêntrico se encaixa em todos os lugares, como o MySpace, Ipod, Itunes. Mas difere o jornalista do não-jornalista quando o assunto é a fonte, diz que os não-jornalistas não têm a sensibilidade de identificar quando determinadas fontes têm que ser preservadas e quando é o caso de expô-las. E diz que o jornalista tem só um plus a mais: contextualizar a informação e hierarquizá-la.
E apesar de entender o aparente cansaço do moço, eu discordo de um tantão de coisas em seu discurso.
Hamilton Octavio de Souza. Falou bastante do poder de fogo da mídia e sobre a atual situação: concentração do poder nas mãos de poucos, favorecido pelo modelo neoliberal. Falou sobre o posicionamento da grande mídia brasileira estando à direita do partido republicano do Bush. Comentou sobre a crise midiática gerada pelo conglomerado – ideológica, política e cultural e do refluxo da mídia alternativa e movimentos sociais. Citou a CUT e a UNE como movimentos muito mais burocráticos do que propriamente sociais – o contrário do que acontece com o MST e seus veículos. Hamilton defende a exigêcia do diploma (que já existe há 41 anos no país) por uma única e exclusiva razão: sustentação da categoria e piso salarial. Argumenta que é muito mais a favor da exigência do diploma do que a possibiliade do abuso do empresariado, passando a não reconhecer o ofício como profissão especializada. Mas concorda que a faculdade está completamente equivocada, que ela domestica o aluno, que o coloca dentro de um formato único, em que ele sairá “pronto” para a realidade das grandes editoras e empresas de comunicação. Então a tarefa principal acaba sendo formar jornalistas nas mãos do empresários do ensino, favorecendo sempre o capitalismo, a obediência ao sistema; quando deveria haver um fomento ao pensamento livre e transformador dentro da universidade. Perdeu-se a responsabilidade da transformação social. Bota-se o jornalismo no campo geral da área de comunicação social e abandona-se a formação crítica, analítica, o questionamento. Afinal, jornalismo é interferência, ação política, agente do processo de transformação, comprometimento com a sociedade. Critica o escrever com censura. Propõe a liberdade no ato, a critividade, as experimentação de várias formas de se expressar ao invés de treinamento para pessoal de empresas que, muitas vezes, tomam conta da grade curricular. E termina dizendo que o maior problema é a falta de diversidade, pois todos escrevem a mesma coisa.
Do lado de fora das enormes janelas do prédio antigo da Escola da Cidade, uma cidade cinzenta. Era domingo e chovia. E mesmo assim, entre bocejos e vontade de cobertor, afirmo: foi uma das melhores palestras, a do Hamilton. E eu concordo tanto com tudo o que ele disse que não sei até onde o que escrevi aqui é interpretação do que ouvi lá ou se é ilustração minha sobre os temas levantados por ele.
