Depois de 1 ano, decidi assistir ao filme que foi campeão de polêmica do cinema nacional. Não vi antes porque fiquei com preguiça. Preguiça de ser mais uma falando, bem ou mal. Preguiça de ter que argumentar com pessoas afetadas ainda sob o efeito da ficção tão inserida dentro da realidade. Mas deixei de fazer antes pra fazer depois. E faço agora, quando sento minha bunda pra escrever e já consigo até prever um texto longo (e prolixo, muito provavelmente), mas com algumas observações.
Que é estupidamente bem feito, não dá pra negar. Perfeito mesmo. Dos detalhes do tratamento de correção de cores (dando para o filme uma cor linda do começo ao fim) até a interpretação ótima de todos os atores, sem exceção. Wagner Moura é caso à parte. Está tão bom que não só mereceu todas as premiações que recebeu (e que foi indicado), mas também merecia ganhar todas as dos próximos 5 anos só por esse trabalho.
É baseado no livro “Elite da Tropa”, escrito por um ex-agente do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Também por isso a moral da história é que o BOPE, apesar de truculento, é honesto. E o pior é que a população mediana que assiste ao filme acredita sem questionar uma vírgula, porque já está lá, tudo mastigado. E acredita em inverdades piores e mais graves ainda: de que essa situação é um horror mesmo, mas que não há outra solução. Não há solução dentro desses moldes igualmente truculentos do capitalismo, que alimenta a relação promíscua entre Estado e drogas. Mas falo sobre isso depois, vamos por partes.
O herói da vez é o Capitão Nascimento que, com sua narração dos acontecimentos durante o filme inteiro, demonstra muito bem o papel que tem a Polícia Militar dentro da favela e a função sempre pra lá de emergencial com que age o BOPE no Rio de Janeiro. Só pra contextualizar, o BOPE foi criado no final dos anos 70, com a função de combater grupos que se manifestavam contra o regime da ditadura militar. Partindo dessa informação, não era de se surpreender com o fato do BOPE ser o que é: a água sanitária quando o desinfetante não dá conta de disfarçar a sujeira do lugar. É o álcool com o fósforo pronto para ser riscado. Não vai pra resolver nada, vai pra dar fim. É um grupo de extermínio, que usa o símbolo de uma faca cravada numa caveira e argumenta que o desenho representa o combate à morte. Mas o que se vê no filme é que o símbolo representa exatamente o contrário, como é revelado na fala do protagonista: “o BOPE entra pra matar e não pra morrer” ou nas musiquinhas que são cantadas durante os treinamentos: “Homem de preto o que é que você faz? Eu faço coisas que assustam Satanás!” ou “Homem de preto qual é a sua missão? Entrar pela favela e deixar corpos no chão!”. Vale lembrar que o BOPE não é qualquer instituição, é uma instituição do Estado, cuja a responsabilidade seria trabalhar pela vigilância e proteção dos cidadãos e não valorizar a prática do horror.
A questão da corrupção da PM também é bem exposta. Fica bastante claro que os salários miseráveis são também uma forma que o Estado tem para manter a PM nas mãos e usá-la como instrumento de manipulação. O filme vai além e responde àqueles que se questionam sobre qual o verdadeiro problema do Rio de Janeiro atualmente: a falta de interesse do Estado em acabar com o tráfico. E explica: o Estado utiliza o tal “combate” ao tráfico para criminalizar a parte mais oprimida da sociedade, que são os mais pobres, os que têm somente as seguintes opções: esmolar, roubar ou traficar. Pra quem a opção trabalhar não existe mais (estou falando aqui de uma classe abaixo do proletariado).
A conclusão que chego é que, no final das contas, o diretor realmente mandou muito bem na argumentação, mas os que entendem são poucos. No mais, com a ajuda das Globos, das Vejas e das mídias gordas no geral, tudo leva as pessoas acreditarem que é isso aí e o que nos resta é a resignação. O que se acrescenta, além do entretenimento? No máximo uns jargões novos entrando para o vocabulário.
E usando a mesma expressão que o Capitão Nascimento usa quando fala sobre o personagem Matias (o estudante de direito), a minha crítica é que o diretor “alivia” muito para os amigos da elite. Exagerando na caracterização do playboy que fuma maconha, transformando-o em um super-traficante com quilos e quilos de maconha e distanciando o personagem dos muitos espectadores que poderiam se identificar. Assim faz também com o coordenador da ONG, muitos poderiam dizer: “Ah, mas essa ONG não é séria!” ou “Eu fumo mas não trafico.” ou ainda “Eu não sou aquele cara, ele ultrapassa o limite.” Essa “aliviada” do diretor existe propositalmente para afastar o real debate e a grande parcela de culpa da burguesia no mínimo omissa.
Entretanto, é compreensível que o diretor alivie para a elite brasileira. Afinal ela não ia bancar a super produção de um filme que acusasse a ela mesma de ser responsável pela vergonhosa realidade em que vivem as camadas mais baixas da nossa sociedade.

Você tocou em pontos que eu até pensei, mas nunca soube colocar em argumentos: a aliviada da classe alta.
É isso, é o ponto de vista do BOPE que é um grupo de extermínio institucionalizado e pior que isso, viraram os heróis da nação. Tão desde as sex shops, aos carnavais, às piadinhas. Até Deus entrou na jogada nas piadas do Cap. Nascimento. Aliás, ele é o nosso Chuck Norris, o cara que todo mundo morre de medo.
Tatit, gostei bastante do texto e concordo com a maioria das coisas, acho até que o diretor foi “ousado” em dar um cutucãozinho na classe burguesa, a maioria dos filmes brasileiros que fizeram sucesso não chegam nem perto.
Eu acredito que o modo como é tratada a violencia no rio, pelo bope, seja fora do que acho ideal, mas se for mesmo como eles mostram, pelo menos colocam um pouco de “respeito”, nem que seja forçado, por algo que está bem longe de existir: Honestidade.
Não vivo nesse meio, então fica muito fácil dar minha opinião, querendo ou não, mesmo sendo contra, ainda faço parte da classe mérdia.
saudade.
Pois é. A grande maioria se apropriou apenas de alguns elementos do filme, mas vê o todo como algo distante. Todos estamos muito bem inseridos na barbárie do sistema.
Tô com saudade docê!
Tatit! Vc vai me mandar aquela cartinha ou eu vou ter que pedir seu endereço?? :D
Bjokas
PS- Hoje de madrugada nasceu a filhinha de uma amiga…é tão feliz ver amigas tendo filhos, principalmente qdo ja se é mãe :) É que por aqui, mãe, assim, que nem a gente, só tem eu, aí resolvi compartilhar! Depois eu faço um post pra ela, a pequena Iara.
Não vi o filme, ainda estou com preguiça.
Beijo
Tatit, concordo com o conteúdo do que vc disse em quase tudo, mas seu discurso tá muito maniqueísta.
A caracterização de Estado = capeta, burguesia = purgatório e talz, é meio restrita.
O que vc disse é real e parte do problema, mas o problema é maior, é cultural tbem, o Brasil é um país sem muita solução, e o discurso esquerdista tbem está cansado, surrado e sem efeito.
E pra falar do filme, eu não gostei. Achei “over”
Interessante seu ponto de vista, Tatit.
No entanto. Você está sendo muito crítica. É claro, que a grande massa não vê a real mensagem no filme, até mesmo por que é um filme, e sempre haverá de ter os “tais” estereótipos.
No fim disso tudo, não podemos continuar buscando respostas para algo que já sabemos. É o momento de “implantar aquela solução”.