Escrever sempre foi uma grande válvula de escape em mim. A prática da escrita é como um apêndice do que eu sou, da minha história e referências, visualmente representadas por um terceiro braço sem finalização, sem continuidade, um braço que começou a nascer ali e não vingou. Algo que deve ter surgido ainda na minha gestação, uma pequena extensão do próprio corpo, da qual não tem sangue, nem veia, nem músculo, mas pulsa todo o movimento do coração e da mente, fazendo sangrar a caneta no papel.
A conjugação do verbo, a decisão por essa palavra e não pela outra, a pontuação (des)conexa, empregada conforme a entonação do que digo, na tentativa de traduzir da maneira mais fiel a forma com que a ideia se constroi em minha mente e como sinto isso no corpo.
Desde que fui alfabetizada não lembro de ter parado de escrever. Outro dia, desfazendo ainda as caixas da mudança, encontrei meu primeiro caderno de pequenas anotações. Sonhos da noite anterior escritos a lápis. Ainda hoje em tempos de teclado e telas touch de iPhones e iPads, na hora de usar o verbo enquanto as palavras estão brotando soltas na pensamento o que me deixa mais a vontade é a dupla lápis e papel. Carrego um calo horrível por conta disso, que continua grande e visível no dedo do meio da minha mão direita, destra que sou.
A culpa é de eu não saber desenhar, essa coisa toda de escrever, aposto. Grande frustração minha, não saber desenhar uma casinha decente. Deve ser por isso também o motivo de eu ter ido para a fotografia, procurar ângulos novos de imagens já formadas.
Escrever para ninguém, escrever simplesmente para que o que está sendo escrito se despregue da pele. Escrever as alegrias na tentativa de prolongá-las, adjetivando-as com suas cores. Escrever as dores na tentativa de decifrar a medida de sal dispensado em cada lágrima e assim, aos poucos, entendê-las e exorcizá-las.
Escrever sobre o que acontece dentro, quando coisas de fora mudam. Escrever, como forma de conforto, alívio, passagem secreta de um estado de coisa para outro estado de coisa. Escrever como tradução, apesar da imagem estar muito mais presente no meu cotidiano no que se refere a interpretação do sentido das coisas.
Apesar de, estou de volta. Para tudo isso e outras tentativas de expressão verbo-emocional. Para continuar, enfim, fazendo o verbo pulsar na vida. E eu flutuar nela, como na música da PJ Harvey, da forma que for.
A ausência não é uma merda? Portanto, bem-vinda… e escreva, mais e mais. Sempre.
Em tempos de escrita sintética, sem vida, (re)surge você. Seja (re)bem-vinda!
Lá pela antiga terceira ou quarta série eu já escrevia e arriscava poemas que nunca ficaram registrados, pois no dia seguinte me pareciam tão ruins que acabavam rasgados e jogados atrás de uma roseira, que com seus muitos espinhos, guardava a salvo o segredo de minha medíocre poesia. Fosse eu menos crítico, poderia ser poeta, mas com a roseira como cúmplice o que se salvou foi ao menos o espírito romântico…